sábado, 29 de fevereiro de 2020

O AUTORITARISMO OMISSO DA AUTORIDADE


Há um ano enviei um e-mail para o Presidente da Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária, pedindo-lhe resposta a um outro anterior. No entanto, como o senhor Presidente é uma entidade muito acima de mim – para além de ter muito com que se entreter, tal a profusão de processos e multas – deixou ambas as respostas no seu computador, não se dignando dar resposta a um mero cidadão que se meteu a taralhão sobre assuntos que é suposto não serem da sua lavra.
Uma vez que o assunto deve ter sido considerado esvaziado de conteúdo, embora tivesse sido remetido na passagem de testemunho entre o anterior e o actual presidente, e como se trata de uma carta por mim expedida (ainda guardada na minha caixa de correio) e não das que recebo, julgo pertinente trazer aqui o assunto, à guisa de “carta aberta”.
Este segundo e-mail, enviado para "transito@ansr.pt" é de 19 de Fevereiro de 2019 e faz reporte do primeiro (transcrito a seguir), que é de 27 de Janeiro de 2019.

Reporto o e-mail de 27 de janeiro findo [2019], ao qual não foi dada resposta concordante, discordante ou de recepção.
Aproveito, na insistência, para esclarecer que entre Albergaria e a cidade da Guarda há 10 e não 6 limitadores de velocidade (sentido ascendente) e entre a Guarda e Albergaria há 15 (sentido descendente), incluindo uma curva - justamente designada como "Bossa do Camelo"- que limita a 80 km/h, depois de um pré-aviso de 100.
Mesmo considerando que o troço foi construído no traço do fatídico IP5, o facto de possuir 4 faixas de trânsito (duas em cada sentido) não justifica, por razões de segurança, esses limites, os quais são bem aproveitados para cobrança em contra-ordenações rodoviárias.
Com isto pretendo dizer que sendo uma auto-estrada portajada, há nela cerca de 16 quilómetros com limite de velocidade no sentido ascendente (distâncias somadas entre os sinais C13 de 80 e os imediatos C13 de 100) e cerca de 21 quilómetros no sentido descendente, o que, legitimamente, devia classificar a via como semi auto-estrada ou parcialmente IP, sem contar com o desgaste que os condutores sofrem num percurso que, de imprevisto, os coloca de pé no travão e olhar no conta-quilómetros.
Se é uma questão de tesouraria - que é, de facto - não assenta numa regra de Estado que se afigura como pessoa colectiva de bem.
À vossa consideração esta postura que, pela análise estatística, vem aumentando o número de sinistrados em concomitância com o mesmo número de coimas, sem que seja resolvido o essencial: a segurança rodoviária e estancar a perda de vidas humanas.
Terei, a todo o tempo, de colocar o assunto em sede judicial.

Do e-mail reportado, considerada a via mais propícia, dado que as críticas e sugestões da plataforma http://www.ansr.pt/Pages/Sugestoes.aspx, não entravam por aquela via, deixo o seu conteúdo:

Na A25, entre a via de saída da A1  para esta artéria, em Albergaria, e a cidade da Guarda há, pelo menos, 6 limites de velocidade com sinalizadores diferentes (no solo, verticais e em pórtico) com redução de 120 para 100,  outros seguidos de 100 para 80, com a sinalização C13 num dos casos (cruzamento de Celorico da Beira) não estar ajustada à visão do condutor, graças à sobreposição de outros sinais, o que só por si justificaria outro idêntico do lado esquerdo daquela via com duas faixas e ou iluminação cintilante, de acordo com o Dec. Regulamentar nº 22-A/98, de 1 de Outubro. De qualquer forma, salvo melhor opinião técnica - tanto gostaria de verificar o parecer e o despacho na origem desses limites (!) - não encontro que se mostrem justificadas, a "olho nu", tais limitações (pelo menos nesses pontos), designadamente antes do cruzamento de Sever do Vouga/Macinhata do Vouga, antes do de Reigoso, ao Km 67, ao cruzamento do Sátão/Viseu (local de grande colheita em contraordenações),  Se não for por questões de tesouraria nas coimas punidas e previstas nos artigos 132 a 147 do C.E - e não quero pensar que assim se proceda neste País -, será por esta via estar constituída pela conversão do arcaico traçado da IP5? Não encontro, efectivamente, qualquer desnível nas inclinações centrífugas nas curvas, iguais a tantas outras sem sinalização, nem me parece que haja perigosidade tal na intersecção de entrada e saída da via, uma vez que ao longo da autoestrada há inúmeros pontos semelhantes sem qualquer limite, a não ser o previsto máximo de 120 km/h.
Mesmo supondo que um condutor traga a sua viatura a uma velocidade limite de 120, a súbita e inesperada aparição (praticamente em curva) para uma velocidade degressiva de menos 20 km/h, não se consegue um imediato movimento uniformemente retardado de -7 a 10 km h numa aplicação suave de travões. É a minha opinião, evidentemente.
Aproveito para avisar - caso ainda não se tenham apercebido - que as notificações das sanções acessórias ultrapassam o prazo de prescrição das sanções pecuniárias, algumas mais de 2 anos, levando os transgressores a "somarem" outras contravenções nesse hiato de tempo, principalmente quando se verifica que a data do despacho até à notificação medeia em cerca de 2 meses!
Um ponto mais consensual leva-me a sugerir que, neste portal, coloquem a "Mensagem do Presidente", caso exista. Constitui sempre um pórtico de boas-vindas e exprime o pensamento de gestão atinente ao cargo.

Será que algum dos Leitores recebeu a resposta que me seria endereçada, por engano? Ou será que, pelo facto de se tratar de uma autoridade, esta está isenta do cumprimento de resposta, ainda que seja de simples recepção?
Para que conste, quero deixar aqui expresso que dei conhecimento deste post à própria ANSR, uma vez que a minha post(ura) é - e sempre foi - dizer o que tenho de dizer aos próprios e não enviar recados por terceiros. E ainda que, desta vez, recebi automática e imediatamente a recepção desta guisa - " esta resposta é automática e acusa a receção do seu email que será objeto de tratamento e análise tão breve quanto possível".  Também não devo omitir que mandei o aviso deste link para os Grupos Parlamentares da AR.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

SEPARAÇÃO OU SUBMISSÃO DO PODER JUDICIAL? EIS A QUESTÃO


No século X, Abdul Kassem Ismael, o Grão-vizir da Pérsia de então, cada vez que resolvia sair de viagem, fazia questão de levar com ele a sua biblioteca, toda ela, com cerca de 120 mil volumes, distribuídos por 400 camelos.
Recupero esta perplexidade histórica para falar do “segredo de justiça”, o qual, desde há uns tempos a esta parte, me parece nada secreto (a não ser que seja de Polichinelo) e muito menos de Justiça, porque fere a legislação que o determina.
Pasmo! Re-pasmo! Tre-pasmo!
Sem me querer imiscuir ou desculpar os visados – que supostamente estarão inocentes até se provar a culpabilidade – fico perplexo quando os vários meios de comunicação social trazem para a praça do julgamento popular magistrados, juízes, polícias e demais pessoas em que se supõem faltas mais ou menos graves, como se colhessem os acórdãos dos trânsitos em julgado. Pior ainda, sem que a eles tenha sido notificado o meio de defesa ou inquirição. Posto o estendal na praça pública, logo os juízes pedâneos de café apontam os dedos acusadores e as sentenças, sempre ao arrepio do princípio “in dúbio pro reo”, onde nem sequer há réu. Li algures que isto significa o recuo para outro princípio (que já teve fim, felizmente) de “in dubio pro societate”, que é “carta branca para a volta do sistema inquisitorial”.
Julgo mesmo que nas fases de inquérito e de instrução, os responsáveis devem fazer como o grão-vizir: levar consigo os processos, para evitarem a espionagem e a interpretação livre para alvoroço do que está a ser averiguado. E que assim aumentem as consultas a astrólogos, tarólogos e adivinhos, para se fazerem manchetes que visam manchar antes de julgar. Sem ocultar os casos julgados ou a julgar, deixe-se ao controle do poder judicial – e não do político de facção – o exercício da sua conduta, para evitar que os prevaricadores e os seus acólitos queiram levantar as vestes da icónica deusa grega Thémis ou da latina Ivstitia, para saber o que está por baixo. Com dúbios intentos, “voyeurismo”, e para julgamentos com menos moralidade e mais marmeleiro.
Não quero dizer com isto que se macule a liberdade de imprensa, porque esta deve informar. Informar, sim, repito mesmo, mas com verdade e isenção, sem cuidar de imprimir as parangonas para pilhéria de uns tantos bacocos e escoamento das edições.
Ainda pasmo nas vozes que fazem coro com esta caramunha, que são de comentadores, juristas e demais gente que está por dentro do sistema, que não eu. Se há algo a corrigir, corrija-se, mas sem deitar por terra este primordial edifício da Democracia. Se há faltas, desvios, atropelos, averigúem-se e sejam conduzidos à barra, sem alaridos ou com condenações precipitadas. E pensem que, mesmo com a lei lida e corrida, não haverá juízos iguais nas decisões; para isso, lá estão os recursos, a Relação e o Supremo, que nem sempre estão em consenso de decisão, cabendo ao último a instância final. E também, como diz o povo, “não há capuz por mais santo em que o Diabo não possa meter a cabeça”.
Alguém está interessado, para ocultar outros casos mais obscuros ou outros que o poderão vir a ser, em denegrir os juízes, apontando para mais alto, colocando em dúvida distribuições de processos, acórdãos e legitimidade de quem os profere, o que interfere na honra dos próprios e da própria Justiça.
Não estou a defender A ou B, nem em apelar para alguma máxima que possa dizer que os juízes estão acima de qualquer suspeita e da lei. Elevo o primórdio do bom senso, cujo está a faltar por aí, às vezes com propósitos que ignoro.
Lembrem-se que se começam a comemorar, este ano, os primeiros andamentos que conduziram à Constituição (é o segundo centenário) e que, logo após, ficou consignado, à custa do primeiro Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a separação dos poderes de quem julga e de quem governa. Parece-me que, no aproveitamento desta onda populista e juridicamente popular/pedânea, se quer tutelar e submeter a independência dos juízes. A ver vamos… como diz o cego! E o mais que certamente soará.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A "FUGA" DE LISBOA E PORTO



A companhia nacional ferroviária espanhola, Renfe, fez um favor ao Ministro do Ambiente português. Num mapa que pôs a circular numa revista da empresa, colocou as duas principais cidades de Portugal fora das zonas de risco da subida das águas do mar. Isto aconteceu no desenho do mapa elaborado pela companhia. Tanto Lisboa como o Porto (Oporto) deslocaram-se mais para “dentro”: Lisboa quase encostou a Santarém; o Porto ficou na vizinhança de Lamego.
Se repararem bem (aumentando o desenho, clicando nele), Elvas já não tem Badajoz à vista, como diz a canção, pois ficou a mais uma centena de quilómetros de distância da fronteira, enquanto Vigo saltou a cerca para o lado de cá, pelo que está afastada a possibilidade de errar apenas no território dos outros.
Na rede Twitter, que é uma espécie de diário do governo mundial, a empresa já veio corrigir o erro (o que lhe fica bem, pois errar é humano) - “Pedimos desculpas pelo que foi uma falha no desenho ao ajustar a disposição das linhas no mapa em todo o território”. Nisto da gestão de ferrovias, está visto que é sempre um problema de linhas.
Como o ministro já tinha avisado para a deslocação de aglomerados populacionais das zonas de inundações (é ver no post deste blog do dia 28 de Dezembro último), este mapa veio mesmo a calhar.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

EU E ANTÓNIO COSTA SOMOS PORTUGUESES, DAQUI!...


Para os poucos que seguem habitualmente este blog, não passa despercebido que eu “ataco” António Costa, na qualidade de Primeiro-Ministro quando, no meu modesto entender de cidadania, acho que as coisas não estão bem. Isso não impede de respeitá-lo como pessoa e como português, que é.
Tenho lido e ouvido expressões de autêntica carga xenófoba quando se referem à ascendência paterna de António Costa, tratando-o (ou insultando-o) como “monhé” ou mesmo indiano, chegando a dizer esta aleivosia disparatada: “vá para a terra dele”.
Ainda recentemente, numa conversa de café, lá veio um com a estúpida afirmação que o homem não era daqui e que fosse para a terra onde nasceu. Ignorância, sacanismo, xenofobia, até canalhice, esta afirmação. Muito pacificamente, como é meu timbre, disse à pessoa que António Costa nasceu na mesma casa onde eu nasci dez anos antes dele – Maternidade Alfredo da Costa. E que ele era tão português como eu, pelo que se tivéssemos de ser deportados para a “nossa” terra, já nenhum de nós saberia de onde vieram as suas origens, talvez até dos Godos e Visigodos (povo germânico). E quem diz estes, poderá acrescentar os Estrimníos, os Sefes, os Cempsos, Fenícios, Cartagineses ou Celtas, entre outros, no total de 17.
É bom que se deixe destes nacionalismos bacocos, e destes insultos baratos e muito baixos, que até não têm razão de ser; e se julgue que a Pátria é de todos nós, os que somos portugueses, independentemente do local do nascimento.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

MINISTROS SEM DEVERES… SÓ DIREITOS


Pelas notícias que se divulgaram com base numas declarações de um ex-ministro da Defesa, fiquei a saber que os deveres funcionais de um ministro cabem escritos num cartão de visitas. Quanto aos direitos funcionais, que não foram divulgados (nem o podem ser, dada a sua amplitude), considera-se que não chega um dos volumes da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, sem gravuras, com duas colunas e a corpo 8.
Isto quer dizer o quê? Que o cidadão não-ministro, ao saber de um crime tem o dever de o participar a quem de direito; já o cidadão, quando ministro, mesmo que saiba do crime, cala-o.
O antigo ministro da Defesa Azeredo Lopes assumiu – não numa tertúlia de amigos, onde se contam destas anedotas, mas perante um juiz de instrução – ter tido conhecimento de que as armas roubadas dos paióis de Tancos foram encontradas na sequência de uma chamada “fabricada”. Sendo assim, o homem admitiu ao juiz que não informou as autoridades porque “não tinha o dever funcional” de o fazer. Mesmo que tivesse ganas de divulgar a tramóia, entalada na garganta como espinha de bacalhau, que ainda implicava um caso sério de segurança e respectiva investigação, as funções de ministro não tinham isso inscrito no cartão de visita dos seus deveres e “impediam-no de participar o caso”.
Para mim, isto é grave: com ou sem deveres funcionais, calar uma coisa destas, ou resulta de conivência (o que não afirmo nem acredito, fique claro) ou de falta de carácter e de dever de Estado (o que não afirmo nem acredito), pelo que se houver opção, aponta para um caso de estudo, criando uma terceira alternativa para tal absurdo.
Não digo mais nada. O ridículo pode não matar, mas que dá cabo da saúde a quem atura isto, isso dá!

Em tempo (como é hábito introduzir-se quando se conhecem mais dados à posteriori):
Li as respostas do Primeiro-Ministro ao Juiz de Instrução do caso Tancos. Pasmei!
Encontrei nas respostas às 100 questões algumas, cerca de duas dezenas, "SEM" respostas, ou seja, do género "ver a pergunta anterior" ou "resposta na pergunta número tal". Fica-se com a ideia que há perguntas injustificadas ou redundantes, razão pela qual seria de bom senso a testemunha responder de viva voz e na presença do Juiz. Há ou não há separação de poderes? Não foi por isso e para isso que se comemoram os 200 anos do Liberalismo?


sábado, 1 de fevereiro de 2020

O IVA É AMIGO DO AMBIENTE


Com o lamiré antecipado da entrevista ao Primeiro-Ministro, que ainda não li no JN (sai amanhã, domingo), descobri uma coisa interessante para salvar a Humanidade e o Planeta: como o IVA é amigo do ambiente, quanto mais alto estiver, menor será o buraco (não sei de do ozono se do orçamento). Palavras dele, do Primeiro-Ministro é claro, considerando que baixar o IVA da luz -  “é irresponsável do ponto de vista ambiental”; e acrescentou – “não podemos definir o combate às alterações climáticas como a grande prioridade e depois dizer que reduzir o IVA sem critério é uma grande medida”.
Boa malha! Até o pino saltou! Ou seja, verifico que quanto mais alto estiver o IVA, melhor será para o aquecimento a gasóleo e outros produtos fósseis ou não fósseis, pelos vistos “não poluentes”, uma vez que a electricidade não lhes faz concorrência. Mas foge-lhe a língua para a verdade, quando adiciona às razões ambientais as que deixam de entrar na tesouraria com um diferencial de 17%, ou seja, que a redução para 6% é “insustentável financeiramente”.
Também já tinha descoberto outra “verdade” sem sofisma: o IVA já não é amigo do ambiente se houver a proposta para o aumentar  e repor na restauração e bebidas, o que até me deixou perplexo, uma vez que aos restaurantes só vão aqueles com menos posses e faz mal ao ambiente a taxa intermédia à mesa dos ditos.
É claro que os partidos já estão em dúvida se votarão sim ou não a proposta para redução, à excepção do PAN, que faz de muleta para a coisa se manter. Costa ainda avisa que essa pretensão dos “mouros” (expressão minha) à sua esquerda e à sua direita é “violadora da legislação comunitária”, uma vez que não se trata de restauração e bebidas, nem de escalonar um imposto consoante os consumos, conforme já implorou a Bruxelas.
Há alguém a esquecer-se que o IVA resulta da entrada de Portugal na CEE, em que foi relevante a 6ª Directiva que o uniformizou; e ainda que os desvios ao gosto do freguês foram facilitados no início, onde até houve uma taxa "zero", atendendo às especiais condições de Portugal relativamente à então generalidade dos países. A coisa agora só se faz quando houver autorização.
Há sempre justificações externas, paralelas ou perpendiculares, para fundamentar a cobrança. Querem apenas três exemplos? Às queixas sobre a demasia de multas de trânsito por  excesso de velocidade, “é por razões de segurança”; se se ouvem clamores sobre as “taxas” a aplicar a todo o cão e gato que tenha alguém a sustentá-lo, “é por razões de higiene e santirárias”; agora vem a proposta para baixar em 17% os cerca de 50% de alcavalas que se vão cobrar no valor consumido da electricidade, “é por razões ambientais”.
Enfim, não vou mais longe, porque isto me arrepia quando vejo que, pessoalmente, me querem “comer por lorpa”. Como também tenho o apelido Costa, é caso para soltar aquela frase do chefe da polícia ao seu agente, naquele programa de TV - “Os Malucos do Riso” – “Ó Costa, a vida costa!...”

(Não sei se, a exemplo do que fiz com o anterior "post", deva mandar isto para os grupos parlamentares, à excepção do LIVRE que já não possui grupo e, se o possuiu, lá estará par(a)lamentar. Mandei também ao PAN, aconselhando-os a respeitarem os valores para os quais foram eleitos, no caso das taxas sobre os animais e a aconselhá-los a exercerem o poder do contra-poder, em vez de serem muletas de maiorias relativas. Todos eles não vão ler e, mesmo que o fizessem, era perder o seu precioso tempo, com tanto trabalho que têm pela frente).

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

ESTAS TAXAS QUE SÓ "TACHAM"



A máquina registadora do Sr. Costa e do Sr. Centeno não pára de registar e fazer o tlim-tlim! Mesmo eu aqui, a cerca de três centenas e meia de quilómetros da capital Lisboa, ouço o barulho das entradas do esportulado naquela imensa e imensurável gaveta.
Desta feita, para cobrir não sei que buraco orçamental, daqueles bestuntos saiu mais um primor de fiscalidade. Trata-se de uma taxa(!!!) que vai de 5 euros a 15, consoante a determinação de cada freguesia, tendo por base três vezes o custo da vacina da raiva.  Quando isto sem a “troika”, imagine-se se aquela não tivesse ido à vida e aqui mantivesse a patorra! Mutatis mutandis na alternância governativa, valha a verdade dizer que a qualidade é a mesma, só aumenta a paranóia cobradora.
E para que é esta taxa, que não faz arreganhar a “taxa”? É para todos aqueles que tiverem na sua companhia ou tutela, cães e gatos, muitos deles abandonados justamente pelas juntas de freguesia.
Mas há mais: o registo ou licenciamento dos bichos é anual. Para isso, matreiros como são a puxarem dos galões, os dois senhores já tinham criado o SIAC (que não quer dizer Serviços de Informação de António Costa, mas sim Sistema de Informação de Animais de Companhia), agora entregue às juntas para elas saberem quem tem o quê, e cobrar consoante o desplante de cada autarquia.
Se me é permitido perguntar, gostaria de obter estas respostas:
1ª- Se uma taxa implica uma contrapartida ou serviço por parte de quem cobra, qual o serviço que subjaz à dita?
2ª- Ainda que se lembrem da caquinha dos cães no meio da rua – que grande parte das autarquias nem manda limpar – será que os possuidores de gatos (grande parte domésticos, sem sair ao fresco da rua) também estão sujeitos à espórtula, gorjeta ou esbulho, como lhe queiram chamar?
3ª- Se determinada tutora tiver consigo em casa, dois ou três gatos como animais de companhia, tem de pagar entre 15 e 45 euros para os poder manter taxados, para além de arcar com medicação, limpeza e alimentos? Ou os senhores da registadora pensam em legislar prevendo descontos para grupos?
4ª- O que entendem os senhores da registadora por animais de companhia?
5ª- Qual a ideia de protecção que a caixa registadora faz de animais abandonados?
6ª- Vão existir canis e gatis para os animais que, sem dono, não terão como pagar a taxa?
7ª – Finalmente, qual a posição do PAN, que até agora me parece um apêndice da ora governação?
Como não vou obter respostas – porque em questão de cobrança não há “pai” para estes – outro remédio não há para tanto parasitismo, fico naquilo que me parece ser esta forma de governar para um “monstro” que faz de erário público e que abocanha tudo o que mexa e tenha o sabor a dinheiro; sem ser taxado, o dito fica mais contente que o gato com trambolho.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

GENTE PARA TUDO


Eu nem me devia meter nas coisas do Parlamento. Voto para o seu “enorme” preenchimento e não devia passar daquele gesto. Mas daquela casa, dita da Democracia (que é, de facto), saem coisas do arco da velha. Talvez coisas da velha com o arco da governação, se atendermos ao que se diz e ao que se faz por lá.
Desta vez, uma deputada eleita pelos portugueses, de seu nome Joacine, do LIVRE, apresentou uma proposta para a devolução de património existente nos museus portugueses aos países de origem nas antigas colónias de Portugal, o que acho absurdo, tanto mais que estava para entregar a um museu um pequeno rosto de pau preto que comprei em Moçambique.
A minha primeira questão é esta: tenho um amigo que saiu de Luanda com uma malinha de mão, sem sequer trazer o álbum de fotografias do casamento, quiçá agora nalgum museu para se ver como é que eram os casamentos dos “colonos”. Terá ele hipótese de ser devolvido? E será que a deputada foi eleita pelos portugueses para defender o interesse dos portugueses? Ou há na Guiné, em Angola ou em Moçambique algum português naturalizado que tenha proposto a devolução de, pelo menos, o álbum do meu amigo?
Atrás deste disparate, saiu outro, também disparado: André Ventura, do CHEGA, a propor a devolução daquela deputada ao seu país de origem, pois nasceu na Guiné. Se tem, por acaso, nascido a bordo de um navio, teria de ser devolvida ao convés do mesmo? Ora, se ela é cidadã portuguesa, a que título vai recambiada para o país onde nasceu? Só pode tratar-se de um ridículo para castigar e vingar outro ridículo.
Não se passaram dois dias, soube-se agora que uns “hackers” do Barreiro terão entrado no sistema da CNE da Guiné, onde deixaram um vírus no sistema e levaram a que Sissoco Embaló ganhasse a segunda e derradeira volta das eleições presidenciais. Isto quer dizer que, a acreditar nas notícias até aparecer o Polígrafo, depois de contados os votos dos guineenses, as eleições fossem de facto decididas no Barreiro.
Não sei se isto acontece mesmo ou se eu ando a ler mal. Se acaso é verdade o que se passa, ainda que haja liberdade de expressão, acho que não será preciso estar plasmado na Constituição o decoro e o bom senso. De qualquer forma, já deve existir uma única solução: devolver à Guiné o computador que trabalhou no seu acto eleitoral.
Se me perguntarem qual a razão do título desta crónica, aponto a sua origem no rifoneiro popular: “Neste mundo tem gente para tudo e ainda sobra”.

domingo, 26 de janeiro de 2020

O RACISMO INCOLOR


Não escrevo este texto para aquelas cacholas que acham que os pretos estão a mais por aqui, porque não estão. Também não me dou ao descoco de escrever para os pretos que julgam que os brancos são todos racistas, porque eu não o sou e sei de muita gente que não o é, talvez até a maioria. Chamar pretos não é ofensa, assim como ouvir chamar-me branco também não ofende, pois brancos até são os frigoríficos e o papel higiénico.
Vim com esta cantilena para opinar sobre uma recente questão entre uma senhora de origem angolana e um condutor de autocarro de origem portuguesa. Como tem sido noticiado – e ainda não julgado, é bom que deixe o aviso – por a senhora se ter recusado a pagar o transporte ou sequer a exibir o passe de uma filha, o motorista chamou a autoridade. E aqui é que bateu o ponto…
A senhora reagiu, deu umas dentadas no polícia, este submeteu-a e levou-a para a esquadra. Apareceu a mulher com a cara de quem não foi afagada, pálpebras inchadas e lábios com sinais de agressão ou outra coisa qualquer, suponho que em vias de serem comprovadas as causas dessas mazelas notórias. Logo saíram os arautos do costume – foi racismo! Ou seja, se fosse uma senhora de cor branca na recusa do pagamento, nas mordeduras ao polícia e no suposto “tratamento” em sede de autoridade, como seria classificada a conjuntura ocasional? Possivelmente seria “integracionismo branco”.
Bem feitinhas as poesias, se fosse em tempos que já lá vão, a história passaria a ser narrada em cantigas do ceguinho, ao som de um realejo. Mas não estamos em altura de tratarmos as coisas com cantigas…
E há mais. Alguns elementos “não racistas”, que nesta altura só posso classificar de “incolores”, trataram de castigar o condutor, porventura como retaliação pela queixa que deu lugar ao caso. Se acaso os ditos "tratadores" forem de cor escura, como supostamente haverá quem conjecture por maioria de razões, será que se pode também classificar de “racismo”?
O que devia ter sido feito – ou omitido – para tudo acabar em bem em prol do convívio de “raças”? O motorista ter feito vista grossa e deixar seguir a filha sem o pagamento, abrindo uma isenção por se tratar de cor diferente? O polícia fazer vista ainda mais grossa e, em vez de ser mordido, pagar a passagem do bolso dele, como já acontece com parte dos seus acessórios de função? A senhora comportar-se com os deveres que se exigem a todos os cidadãos?
Enfim, duas profissões de alto risco, que eu não queria: para motorista, tenho pé pesado e se exigisse a um branco, exigiria a um preto, castanho, amarelo ou vermelho; para polícia, conforme a coisa está, não aceitava a farda, nem debaixo d’armas!
Resumindo na continuação do caso. No sentido de defesa de uma das partes, a SOS Racismo defendeu que o polícia envolvido nas agressões deve ser “imediatamente suspenso” de funções, não cuidando em apurar se foi ele o causador da barbaridade para com uma detida mas, do outro lado, não me consta que a SOS Polícias – neste caso o MAI – tenha vindo a defender o agente por ter sido desautorizado e mordido nas mãos e braços, nem a deputada do LIVRE viesse a clamar, como bem o faz com sonoridade, contra a actuação das autoridades, sem na sua suposta postura democrática, vir a condenar as agressões ao motorista.
Enfim, como sempre ouvi, venha a verdade ao de cima, embora o que está à vista não precise de candeia.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

OS BOMBOS E AS MOCAS DO S. BRÁS


Está bem próxima a data do S. Brás dos Montes. É uma romaria anual, no primeiro domingo a seguir ao dia de S. Brás, que se faz desde sempre, talvez mesmo para lá da pré-nacionalidade e do próprio culto católico. Impressiona o aparato e o barulho. Impressiona mesmo!
Não é uma idolatria absurda do cacete; primeiro, porque não há ídolos sacros ou profanos (a não ser o S. Brás, pelos primeiros), depois porque o cacete serve apenas de adorno (embora já fizesse antanho algumas quebraduras de costelas e rachadelas de cabeças). Há, isso sim, o testemunho do que foi um ancestral esguardo pelo sagrado e o supersticioso respeito pela terra. Nestes dois mundos antropológicos não existem perversão e selvajaria. Há reunião de gentes, fraternidade, diversão e religiosidade, pois então!...
Os romeiros alinham por maltas, principalmente as dos bombos, que representam uma localidade ou um grupo. E os que não rufam na pele dos bombos encaixam numa romaria que se move como as lagartas dos pinhais, exibindo ao alto as mocas papudas e toscas, de formas naturais e patuscas, retiradas de qualquer ramo de árvore e mantidas no acervo familiar. Só baixam os paus das mocas quando dão três voltas à capela.
Os bombos e pandeiretas são de fabrico local. Nada é importado, a não ser algum penetra que traga de fora algum artifício, mas não é a mesma coisa. O som tem de ser da serra, dos montes, num plano primitivo. Ali se alinham os de Miguel Choco, de Venda do Cepo, de Rio de Mel, de Vila Novinha, de Carapito, de Rio de Moinhos e todos os que habitam por terras ao redor da serra do Pisco, herdeiros e estirpe daqueles combativos que enfrentaram os governos para que não lhes tirassem os baldios, como narra Aquilino Ribeiro em Quando os Lobos Uivam. Ao todo gente de Trancoso, Aguiar da Beira e Sernancelhe.
Cada malta tem a sua ordem de entrada, a compasso de festa, com o chefe à cabeça e a exibir no alto a sua moca. A seguir vêm os bombos, as flautas e as concertinas, alguns adufes, reque-reques, consoante a malta, identificada pelo seu estandarte. E o S. Brás, protector contra as doenças e problemas de garganta, ficará satisfeito por ouvir de tantas gargantas os vivas aos casados, aos solteiros e à união das maltas - só não ouvirá aos políticos e aos governantes, porque não há razão para isso e não fazem lá falta alguma.
Foto de Agostinho Sanches, do livro "A Festa dos Montes" de Julieta Silva

Só há interrupção durante a missa, a que se seguem as merendas nos talhões destinados a cada malta. Os convivas e os penetras e os moinantes são aceites, partilhando entre todos a comida e a bebida, no chão espalhadas sobre as toalhas. Depois do almoço recomeça a zanguizarra, onde muito naturalmente os bombos são os reis da chinfrineira.
E falta referir a prática de se dar volta à capela com os rebanhos. Hirta e firme se encontra a grande parte dos intervenientes, só claudicando lá para o tarde, depois de bebido o tintol a passar da marca. Fechado o pano, lá seguirá um ou outro aos tropeções com a mesma sanha dos que cantavam:
"Se o vento não sopra
E o mar não zurra,
Então quem é que me empurra?"
O São Brás dos Montes é uma reunião de clãs. É uma reunião onde se compete em termos musicais numa opulenta sinfonia e em aparato de costumes. Foi sinal de ajuste de contas, em tempos passados, isso foi. Todavia, arraial onde não houvesse balbúrdia e bordoada seria então considerado romaria?

(22-1-2020 - Acrescentei Rio de Mel no texto, pois o meu amigo Paulo Coelho fez-me essa observação)

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O SENHOR OITENTA MILHÕES



No início dos anos oitenta, o programa televisivo Sabadabadu, apresentava uma dupla constituída pelos actores Camilo de Oliveira (o Agostinho) e por Ivone Silva (a Agostinha), que depois de bem bebidos, trauteavam uma canção de crítica social e política, que replico agora com uma alteração – substituí o vocábulo “país” pelo vocábulo “mundo”.

Ai Agostinho, Ai Agostinha
Que rico vinho, Vai uma pinguinha?
Este mundo perdeu o tino, A armar ao fino, a armar ao fino
Este mundo é um colosso, Está tudo grosso, está tudo grosso
Isto é que vai uma crise, isto é que vai uma crise!

Mais uma crise – e das perigosas – surgiu agora nos primeiros dias do ano de 2020. O presidente americano enviou um drone com uma carga bem explosiva para reduzir a torresmos um dos chefes de guerra iranianos. E não falhou.
Lá surge mais uma crise, gritos de vingança, promessas de retaliação e as habituais manifestações esganiçadas de punhos erguidos, onde se queimam as bandeiras americanas.
Não vou falar do incendiar das bandeiras, sinal de que prospera o negócio dos fabricantes das ditas, que não têm mãos a medir, e calculo que até virão da China. Vou falar da propensão vingativa que leva a tentativas ridículas de retaliação. Houve uma figura do regime iraniano que teve a ideia de pedir 1 dólar (logo, um dólar?!) aos 80 milhões de habitantes do país, ideia essa que um endinheirado qualquer aproveitou para oferecer, em igual quantia de 80 milhões de dólares, pela cabeça de Trump.
Não me vou pronunciar sobre o montante, que nem me parece exagerado em face dos valores de contratação de jogadores no futebol, mas do estado a que isto chegou, para esta gente, de um e outro lado, andar a brincar com o fogo.
Vai daí, encontrei uma foto anónima na net, que me levaria a propor, como legenda, o apetrechamento bélico de um eventual candidato aos milhões do prémio, quiçá livres de impostos.
Este “mundo” é um colosso,
Está tudo grosso, está tudo grosso


sábado, 28 de dezembro de 2019

PARA PIOR, JÁ BASTA ASSIM


O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, sugeriu qualquer coisa como isto: as aldeias ribeirinhas do Baixo Mondego vão acabar por ter de mudar de sítio, para sair das zonas de risco. E acrescentou, como aviso: “paulatinamente, as aldeias vão ter que ir pensando em mudar de sítio porque não esperemos que esta capacidade que temos possa vir a crescer. Isso é o contrário da adaptação". Ou seja, tal como nas lendas, em que as formigas obrigaram as aldeias a afastarem-se dos leitos de água, a deslocação das aldeias do Mondego não pode ser tabu, embora não tenha um plano A, B ou C.
A solução - nem sei se acredite nisto - pode passar por rebocar as casas para uns metros mais longe das margens, tantos os que os cálculos do ministro determinem.
Tudo isto, como é evidente, devido à culpa das alterações climáticas e do degelo, que afectarão principalmente o rio Mondego, o que não acontecerá na costa portuguesa e muito menos onde teimam em instalar o aeroporto do Montijo, onde já há plano para subir a cota em 5 metros, à cautela, sem necessidade de deslocalização. Suponho até que esse plano preveja a construção do aeroporto sobre estacas, tipo aldeia palustre asiática.
Este aviso servirá para as cidades à beira-mar, se os santos da costa não as protegerem como protegem o ministro. Subindo o nível do mar, como prevêem os cientistas sibilinos - já terá o Mondego a designação de maior rio da Europa - deslocam-se as cidades para sítios onde os habitantes possam andar nas ruas sem molharem os pés.
Se alguém tem pachorra para aturar isto, continue, pois a mim, que me canso de ouvir tanto disparate, já me falta…

Falta-me avisar – pois também tenho direito a publicar avisos – que a montagem feita na imagem é pura coincidência futura com uma pessoa que me parece real numa revista irreal, bem como os “santos da costa” coincidirem, na designação, com os apelidos do primeiro-ministro. Já cheguei à conclusão que, tal como estamos, será melhor sorrirmos para não chorarmos, embora o povo tenha outro rifão, que diz “para pior, já basta assim”.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O LAMBE-BOTISMO, ACTIVIDADE COM FINS LUCRATIVOS



Nem sei se alguém, algum dia, pensou em tributar esta actividade, que ora nem sequer consta do CAE – acrónimo de Código das Actividades Económicas – a qual, pelo que me parece, é deveras lucrativa, recebendo em dividendos e outras pagas. Seria então difícil o cálculo da tributação, porque de grande dificuldade no apuramento dos grandes resultados lucrativos, designadamente por quase ausência de custos, a não ser a “saliva” da lambidela de botas.
O lambe-botista almeja sempre mais em benefício próprio, quase sempre à custa do prejuízo de terceiros. A gama ou espectro da actividade é vastíssimo, exercendo-se em linha ascendente, por vezes com descaro e malvadez, se bem que dissimulado como convém ao lambe-botas. É exercido no âmago da situação do dito, de preferência com o fito de alcançar serviço nas “gáspeas” metafóricas do superior hierárquico – chefe, director, patrão, professor, empregador, oficial, autarca, político, enfim, uma colossal gama de patamares do calçado onde a língua pode prestar a si própria relevante serviço.
Devia ser, repito, uma actividade registada, com o devido enquadramento fiscal, mesmo que exercida em acto isolado ou em regime de actividade ilegal. Também poderá ter enquadramento fiscal, se bem que ninguém se proponha colectar como “outros prestadores de serviços”.
A actividade está reconhecida e nem sempre passa despercebida no meio onde se exerce. Também já tem iconografia, como o quadro que abre este arrazoado - “No país dos lambe-botas” – um óleo s/ tela, de 70x80, de Luiz Morgadinho.
Nunca me vi nessa actividade, talvez porque nem jeito nem feitio me predispõe para ela; pelo contrário, em vez de lamber as botas, presumo até que manchei algumas, mormente quando enfrentei, verbalmente e por escrito, superiores hierárquicos e outros santos em vários altares. Também não posso dizer que permiti o benefício de terceiros quando hierarquicamente estive em chefia e administração, embora tivesse alguns “profissionais” para fazer o serviço nas minhas “botas”, porque para mim o valor de cada um é o princípio da minha apreciação, e nada mais.
O lambe-botismo é, tal como a prostituição, tão antigo como o mundo. Pelo menos tão antigo quanto o é o reino dos símios, sendo que neste é princípio estabelecido. É, pois, uma ilicitude tolerada. A este exercício, que eu designo por lambe-botismo, o Miguel Esteves Cardoso chama engraxanço e culambismo, tendo os mesmos princípios e sobre a mesma actividade. E o Miguel vai mais longe, afirmando que a actividade evoluiu com os tempos e que se foi “subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu”. E assegura o Miguel: “O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional. O culambismo compensa”.
Logo, entre a minha designação e a do Miguel, só há a diferença semântica. A actividade está aí para durar, evoluir na forma, progredir e tentar passar despercebida na sociedade, bastando ser percebida – e bem entendida, para recepção das graças – pelo dono das botas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

GUARDADO ESTÁ O IVA...



O chico-espertismo da dupla Costa e Centeno, mais da calculadora que ambos não deixam em descanso, levou-os a uma ideia luminosa, daquelas que aparecem como uma lâmpada sobre a carola, tal como o Professor Pardal, da Disney. Para minorar a diminuição do caudal de entrada do IVA calculado sobre o consumo de electricidade, que a Oposição os força a aplicar como condição “sine qua non” sobre o Orçamento de Estado, vá de quererem uma taxa progressiva ou degressiva (o que vai dar ao mesmo) sobre os consumos: quem consome mais tem uma taxa superior a quem consome menos. Isto até parece uma medida justa, uma prenda no sapatinho, mas tem o seu quê de esperteza saloia. Como quem consome menos terá uma taxa reduzida, a cobrança “a sério” é para as taxas a quem consome mais, ou seja, o IVA engrossa sem grande mossa. Para além disso, os partidos mais à Esquerda, estarão a esfregar as mãos, visto terem concretizado o objectivo propagado e nivelar por baixo os que poupam mais energia; e os mais à Direita, para ficarem bem na fotografia, ajeitam a gravata e concordam.
Todos se agarrarão à ideia como hera a um tronco. E lá se vai a temida coligação negativa no Parlamento! É de mestres!...
Há uma questão que eles certamente colocaram aos ouvidos um do outro, a estremecerem de patéticos: quem agora consome menos, graças à benesse, poderá passar a gastar mais e aquilo é como o quartel-general em Abrantes, tudo como dantes…
Só gostaria de saber se aquelas duas inteligências se lembram que os habitantes dos climas mais frios, como o interior Norte e Centro do País, têm de forçosamente consumir mais energia eléctrica, seja qual for a fonte de calor recorrido! Ou pensam também solicitar que sejam alterados os critérios sobre o princípio da estabilidade do IVA para esses casos?
Há um obstáculo: o IVA não admite taxas variáveis, nem será suposto que se autorizem taxas variáveis (ou aquilo não é elástico, como consta da Directiva Comunitária, ou a Comissão Europeia se curva às jogadas do Ronaldo das Finanças), ainda com a perspectiva da inconstitucionalidade da medida. Vá então de pedirem à Europa que abram esse precedente, o qual poderá abrir outros precedentes e vogar no abstracto pelo consumo mais e menos como, por exemplo, quem consumir mais gasolina, pagará mais imposto, e quem andar só aos fins-de-semana, pagará menos.
Será que não se pode considerar um Prémio Nobel para as cabecinhas mais pensadoras? Certamente que não ficará o Saramago como, até agora, o único galardoado luso!
No jogo de números na “playstation” orçamental, o zero é a tecla mais batida – é como se se tratasse de um aparelho Morse, tec,tec,tec. Guardado está o IVA para quem o há-de comer. A ver vamos…

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A CIDADE DOS CINCO “ESSES”


No Domingo, dia 24, o que significa que foi ontem, correspondi ao convite de um amigo para fazer parte, na representação da minha Confraria, num Capítulo e Entronização da Confraria dos Enófilos e Gastrónomos da Beira Serra. O cientista, físico e professor Fernando Carvalho Rodrigues, ia ser entronizado nessa Confraria e dei por boa decisão ter comparecido a essa cerimónia, para ouvir o que ele disse.
Só mesmo o meu amigo Augusto Isidoro, ex-Procurador Distrital da Guarda (Ministério Público), membro da direcção e organizador, me faria comparecer num dia nublado e de chuva, numa cidade a mais de mil metros de altitude e, ainda por cima, a deitar “faladura”. Mais convencido fiquei pelo incitamento do meu colega e amigo Florêncio Nunes, que me julga ser capaz de despachar com palavreado, em mercado de gado, um asno com pulmoeira. E é esse instantâneo do discurso que reproduzo a abrir o texto, enquanto o auditório, que rondaria as sete dezenas de pessoas, se espalhava pelo escadório.
Lá vesti o traje castanho de romeira amarela, com a respectiva insígnia ao peito, e falei no alto da escadaria da Sé da Guarda.
Até aí tudo bem. No entanto, para causar perplexidade nos confrades presentes, afirmei que a Sé que estava ali ao nosso lado não tinha sido mandada construir por D. Sancho I (primeira perplexidade) e que era a terceira da sua série desde que aquele rei resolvera tirar o episcopado da Egitânia para a Guarda.
Para causar mais confusão, adiantei que a cidade, que é conhecida pelos 5 Efes (Farta, Fria, Feia, Falsa e Forte) devia ser no meu entender conhecida pelos 5 Esses (os dos dois Sanchos, primeiro e segundo, e os “esses” das três sedes do bispado).
A coisa conta-se em duas penadas. Talvez para namorar a Ribeirinha da “cantiga de amigo” que temia o tardar do seu amor na Guarda, o nosso D. Sancho meteu uma cunha ao papa Inocêncio III e a Idanha viu fugir a sede do bispado para a cidade mais alta. Assim foi construída uma primeira sé, em estilo românico, de que não restam vestígios. D. Sancho II mandou então construir uma nova catedral no local onde se situa a actual Igreja da Misericórdia, que foi concluída no século XIV. Porém, D. Fernando, ao reformar as muralhas da cidade, deu conta que a Sé ficava fora delas, temendo que os castelhanos aproveitassem subir pela sua torre para entrar nas muralhas, mandou-a derrubar, com a promessa de fazer outra dentro das muralhas. Mas não fez, pelo que D. João I ordenou a construção de nova sé, no local onde hoje se encontra. Mas as obras demoraram muito tempo, talvez porque o seu ministro do tesouro real já lhe enchesse os ouvidos com as cativações, pelo que a Sé da Guarda, conforme a conhecemos hoje, só foi concluída no tempo do rei D. João III, já no séc. XVI, com introdução dos estilos gótico e manuelino. Isto significa que o D. Sancho I, quando foi lançada a primeira pedra – e naturalmente a última – já estava há muito na terra da verdade.
Se a catedral estivesse aberta, teria eu oportunidade de falar dos seus absidíolos e arcobotantes, se tanto fosse a minha memória cabonde para me ajudar. Ou ainda de dar a volta à Sé até descobrir aquela gárgula que tem as nádegas e o cu aberto (um senhor ânus, só lhe falta a vergazinha ao léu) na direcção de Espanha, como a exorcizar velhas disputas.
Talvez os meus amigos se tenham arrependido por pagaram caro o convite. E foi-lhes bem feito, porque não me benzo duas vezes para dar ao Demo as rédeas desta oratória. Embora estribado em factos históricos, fui por esta via da perplexidade, tanto que às vezes, como diz o rifão, ando à procura de “achar sete pés ao carneiro ou asas ao burro”. E eu, que sou um espírito de contradição, podia ter falado em coisas mais elevadas, como aquela com que terminei a oratória, do tipo pilhéria, dizendo que uma das maiores confrarias em Portugal seria aquela que simbolizaria os confrades fugidos aos impostos – "Confraria da Fuga ao Fisco". Apesar de muitos, presumo que, quanto a confrades, não se entronizaria um só. Olha quem!...

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

CADELAS APRESSADAS E AEROPORTOS REVESSADOS


Diz-se pela voz popular que as cadelas apressadas parem filhos tortos e direi eu que a construção dos aeroportos apressados, aliás revessados, sem ser em tempos de guerra, só podem ser paridos por quem torto quer colocar os filhos direitos.
Não percebo nada de ambiente, ainda menos de engenharia e sobre aeroportos nem me perguntem quais são, nem onde e muito menos como. Mas leio, ouço, medito e tenho o direito de pensar – não de julgar – que o novo aeroporto que se quer fazer no Montijo pode trazer “água no bico” e não necessariamente o das aves que vão molhá-lo ao rio.
A ANA e o Vinci casaram para receberem aquela “prenda” de núpcias e vão de vento em popa levantar voo com a coisa. O projecto até é curioso: visto de riba, parece um esquadro ou nave intergaláctica da “Guerra das Estrelas”. Contra ventos e marés, a favor apenas algumas partes gagas da APA, sob o beneplácito do Governo. Em sentido contra, grande parte da opinião pública e a plataforma cívica contra a construção do novo aeroporto complementar de Lisboa na base aérea do Montijo, designada ‘BA6-Montijo Não’ e o bom senso, que não se sabe onde pára. 
Vão mesmo levantar o que teimaram erguer. Já ribomba a pólvora, a maquinaria já aquece os motores e derrete-se o asfalto, ponha-se a mesa do banquete, treine-se a fanfarra e compre-se a fita para cortar. Vamos a isto, ó Evaristo!
Que interessam as preocupações sobre a possibilidade de a pista poder vir a ser inundada no futuro devido aos efeitos das alterações climáticas no estuário do Tejo? Ora, tira-se a água a balde – e pronto!
Que interessam as inócuas 159 medidas da DIA (Declaração de Impacte Ambiental) emitidas pela APA, algumas bem caricatas para um leigo como eu, se a coisa se faz a contento da obra apressada? Pinta-se aqui,  dá-se uma demão ali, arranja-se uma plataforma acolá, paga-se uma portagem em prol das espécies vivas por cada voo – e pronto!
Que importa o escabeche levantado pelas organizações ambientais, uma data delas (GEOTA, LPN, FAPAS, SPEA e A Rocha) que dão parecer negativo àquela coisa, afirmando até que existe uma "pressão política inaceitável" para a execução da obra? Com o facto consumado, acaba-se o pio aos contrários e se ora há pressão, põe-se o pirolito a funcionar e o vapor da indignação sai naquele rodízio – e pronto!
Que interessa a desconsideração pelos habitats e espécies prioritários, bem como áreas protegidas, bem como os riscos de colisão com aves? Pelas áreas protegidas erga-se lá uma alminha, e os bichos que mudem de casa, que saiam da frente senão levam trancada ou chumbada de pressão de ar – e pronto!
Que valor tem saber-se que na região existe o maior risco sísmico e de tsunami do país? Como se trata de um aeroporto, com os aviões no ar, nem sismos nem inundações lhes chegam – e pronto!
Que interessa a poluição sonora e os gases de combustão das “passarolas” a levantar e a aterrar? Para os ouvidos, há por aí muito algodão para servir de rolhão e quanto aos gases, os fumadores nem dão por ela – e pronto!
E pronto, digo eu! Perante esta miséria que vai pelas decisões e decisores deste país, os portugueses que ainda são vertebrados deverão proferir o grito de Cristo no calvário: Senhor, Senhor, porque nos abandonaste?

terça-feira, 12 de novembro de 2019

ENGENHOCAS E GERIGONÇAS


Li hoje uma notícia e o seu comentário que dá pelo título – “À quarta foi de vez, Espanha também tem a sua "geringonça" – onde se refere que o PSOE e o Unidas Podemos chegaram (finalmente) a acordo para a formação de um governo de coligação.
Até aqui tudo bem, não fosse a comparação do jornalista na “geringonça” à espanhola com a dita portuguesa. Primeiro: na “geringonça portuguesa”, os partidos que a formaram com o PS não assumiram qualquer cargo governativo, ao contrário do Unidas Podemos, que requereu a vice-presidência para o seu líder Pablo Iglésias. Segundo: na “geringonça” portuguesa, ao contrário da espanhola, não houve um vencedor claro das eleições, isto respeitante a qualquer dos partidos que a constituíram, enquanto o PSOE venceu as eleições.
A ter que tomar um nome apropriado, a “geringonça” espanhola terá de se chamar “engenhoca”, ou melhor, “artilugio”. Resta saber se tem rodas para andar ou se caminhará em chincolapé. Tanto assim é que, através do borrifador da matemática, não chega para uma maioria absoluta a soma dos deputados dos dois nupciais partidos, sendo necessário recolher calorias e vitaminas de outros pequenos partidários. Tudo como dantes, se é certo que o povo espanhol votou como lhe competia, não deixa de o seu “artilugio” permanecer em estado comatoso “hasta una avería mecânica detener la máquina”.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ANDAMOS TODOS ENGANADOS


Depois de a organização não-governamental dos direitos dos animais PETA, na origem americana, ter lançado uma campanha para acabar com expressões que sugerem maus tratos a animais, o PAN (Partido dos Animais e Natureza) gostaria de ver alterações a expressões portuguesas que se referem negativamente ao trato dos animais.
A coisa surgiu há tempos, perante algumas críticas, acabou o charivari; por este ter acabado, entro eu com a minha sanfona.
O “dois em um” tem as suas vantagens, tirando aquele rifão de “matar dois coelhos com uma cajadada só” e ainda a mais ridícula pretensão de o alterar para “pregar dois pregos de uma martelada só”. Se fosse “comer dois pregos de uma dentada só”, se não se tomasse por alarvidade, faria mais sentido.
Não se julgue que isto só se aplica à Língua portuguesa. Em inglês, a expressão acima é “kill two rabbits with one blow” e a expressão comparada à nossa é "matar dois pássaros com uma pedra" (kill two birds with one stone), que passará a poupar as aves com  "alimentar dois pássaros com o mesmo pão".
Embora não tenha o mesmo sentido, dizer “mais vale dois pássaros a voar do que um na mão”, e não proferir “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, se me é permitida a sugestão, ainda que o rifão perca todo o sentido, seja “mais vale três pássaros a voar e nenhum na mão”.
Parece que não, mas sou pela vida e protecção dos animais. Sou incapaz de matar algum, o que não quer dizer que, como carnívoro, não passe ao dente aqueles que os outros sacrificaram. Suponho que me alivia pensar assim: já está morto, de qualquer forma não foi morto para mim, qualquer um o podia comprar. Enfim, se calhar está na hora de aderir ao veganismo e tornar-me vegetariano.
Quando andava aí pelos meus cinco anos, os meus pais tinham na coelheira uma coelha. Para mim era um animal de estimação, com quem arranjei alguma empatia; para os meus pais era mais um animal de criação, predestinado a ir parar a uma panela, quando se chegasse a ocasião. Eu não sabia disso, presumi que a coelha estava ali para ser protegida e para compensar a minha solidão de filho único. E enganei-me. Quando dei conta, certo dia encontrei a coelheira vazia e a sua pele estendida num alguidar da cozinha. Foi um choque! Um choque daqueles que marcam, mas marcam mesmo, talvez percebendo que a vida de quem gostamos não depende dos nossos gostos e desejos. Ainda me arrepia a passagem ao escrever sobre ela. Nunca mais comi carne de coelho. O próprio cheiro desses cozinhados me agonia. E o destino da coelha, daquela forma e naquela idade, ficou marcado a fogo na minha memória.
Sigamos adiante para uma próxima alteração.
“Pegar uma flor pelos espinhos” esteve em cima da mesa para substituir uma máxima já velha e relha que nos ensina a “pegar o touro pelos cornos”. Pois bem, embora já alguns de nós, imprevidentemente tivéssemos pegado uma flor pelo caule espinhoso, isso aconteceu e não é avaria nenhuma; nenhum de nós, a não ser que me esteja a ler algum forcado da cara, ousou pegar um touro pelos cornos. Pela minha parte, nem pelos cornos nem pelo rabo e desejo que ele não pegue em mim por parte alguma.
Uma outra alteração deixa o recado para não se usar a expressão “bater num cavalo morto”, substituindo-se por uma outra que leve o mesmo sentido, equivalente àquela que se diz “bater na mesma tecla”, “insistir no mesmo” ou “ser teimoso”. Essa outra será, ainda mais equívoca do que a maldade de bater no cavalo defunto, que é “alimentar um cavalo alimentado”. Se me pedissem a opinião, fugindo aos cavalos mortos e bem alimentados, preferia que se tomasse uma outra, menos ofensiva – “chover no molhado”.
Já houve outras tentativas, mesmo antes do PETA e do PAN pensar nelas, de alterar ditos e canções onde se “maltratam” os bicharocos. Exemplo disso é a letra da canção “Atirei o pau ao gato, mas o gato não morreu”. Dessa arte preferiu-se – e até pode ser bem sucedido, porque há aqui de facto a violência na boca de uma criança –  modificar de modo a ficar “Atirei o pão ao gato, mas o gato não comeu”; o mesmo não sucederia se os mais atrevidos e maldosos resolvessem cantar “atirei o pai ao gato”…
É natural que todas estas expressões já vêm do tempo das cavernas e quem as profere apenas quer reforçar a ideia sem pensar na prática do dito. Tentar modificar ou, pior ainda, proibir por iniciativa legislativa um aforismo que não passa disso mesmo, parece-me ser uma patetice pegada. Melhor fora cuidar por decreto a defesa dos animais que, mesmo retirados os aforismos ofensivos, sofrem na pele os descuidos dos seus parentes vivos da Terra.
O PETA devia preocupar-se primordialmente com o presidente Trump, o qual não se preocupa com animais e muito menos com a natureza, um caso de estudo que, bem analisado, se saberá que o presidente se preocupa apenas com ele mesmo. E também há no rifoneiro português um provérbio para ele: "quem com muitas pedras bole, uma lhe dá na cabeça”.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

OS LIVROS EXCOMUNGADOS



Uma das maiores iniciativas culturais do séc. XX foi a criação das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Para mim, das melhores e das mais benéficas. Foi graças a esta iniciativa que eu tive acesso a muitos livros, em S. Romão (Serra da Estrela) e em Viseu (Abraveses), sendo que nesta cidade, não havendo biblioteca itinerante, tinha de percorrer a distância a pé até Abraveses, cerca de 10 quilómetros, algumas vezes debaixo de chuva e com os livros por dentro do casaco.
Os livros iam até às aldeias mais recônditas onde, como é provável, não existisse um único exemplar, a não ser em casa do professor e do pároco, se bem que quanto a este último, como vou descrever, era matéria maldita e excomungada, pelo que devia servir, caindo lá, para acender o lume da lareira.
Este caso verídico passou-se com o poeta António José Forte (1931-1988) quando era funcionário de uma dessas bibliotecas. Indo ele e o seu colega, dois dias depois do Natal de 1960, até uma aldeia minhota (Parada de Bouro –Vieira do Minho) para cumprir o dever de levar livros aos leitores, aconteceu que lá apareceu o padre aos berros e a intimidar os dois funcionários e requisitantes, acusando uns de estarem a emprestar livros “protestantes” e os paroquianos de levarem para casa aqueles panfletos do demónio. Não contente com as palavras, retirou alguns livros das mãos das mulheres que os levavam requisitados e atirou-os ao chão lamacento, ameaçando excomungar quem levasse aquele “mal” para casa.
O que foi ele dizer! Quase todos os que requisitaram os livros, principalmente as mulheres, foram acometidos da mesma psicose, imitaram o padre e atiraram os livros ao chão ou para dentro da carrinha, ao mesmo tempo que proferiam insultos e ameaças. Ao coro feminino, juntaram-se os homens que vinham do trabalho com sachos às costas, ameaçando os “intrusos” que vinham conspurcar quem estava na graça de Deus. É caso para dizer: os tolos não se semeiam nem se plantam: nascem espontaneamente!
Poucos desobedeceram e terão recebido a excomunhão, que não lhes terá feito mossa alguma, ao contrário dos ignorantes que se propuseram como figurantes da época dos cavernícolas. O que valeu para os dois homens da Gulbenkian e para os livros, foi eles darem o fora, evitando que se abrissem covas no chão para enterrar todo o papel, se não fosse mais prático chegarem um fósforo e queimarem aquela papelada de “belzebú”. À guisa de muitos autos-de-fé, vontade não lhes faltaria de queimarem os livros para se verem livres deles e não para verem tições acesos. Ainda pior, se ficassem os dois trabalhadores a pedirem justificações, certamente a percussão das sacholas estaria apta à rachadela de cabeças e a sorte da biblioteca itinerante seria outra.
Ao ler este episódio lembrei-me do Bandarra, o profeta sapateiro. Um dos mais graves crimes que ele tinha cometido, de que foi julgado pela Inquisição, foi ler uma Bíblia em linguagem. Era proibido possuir e ler o livro sagrado traduzido em português, livrando-se da fogueira por uma “unha negra”: não era cristão novo; não quis alvoroçar os cristãos novos, citando trechos bíblicos; abjurou e participou no auto de fé para se livrar dos pecados da obra; prometeu não possuir mais livros sagrados, a não ser o “Evangeliorum” e o “Flos Sanctorum”, não ler nem escrever sobre o Antigo Testamento, sob pena de maior castigo, naturalmente o das brasas.
Imagino se o meu livro “O Padre Costa de Trancoso”, história ficcionada sobre a lenda de um sacerdote do séc. XV que fez gerar 299 filhos em 53 mulheres, estivesse naquela carrinha, ele que foi publicado 47 anos depois! E imagino também, dentro dos parâmetros de “estilismo” dos jurados do Prémio LeYa 2019, que jeito faria um padre deste quilate no seio deles, justificando a repulsa da atribuição do galardão a 409 originais!
Nem sei se aqui há moral da história. Se meditarmos que o caso narrado pelo poeta aconteceu na segunda metade do séc. XX, 420 anos precisos sobre a condenação das leituras de Bandarra, é caso para encontrarmos as razões do atraso cultural que marcou este País, maninho de ideias e cheio de gentios submissos, e para percebermos até que ponto a Igreja, com aquela postura ridícula (felizmente por parte de poucos sacerdotes), foi fazendo perder a fé naqueles em que era suposto firmá-la, transformando alguns em patetas alegres.