Fernando Pessoa – aliás Álvaro de Campos – devia adivinhar que não
estava a escrever apenas para a sua época, podendo então poetar o que lhe apetecesse;
devia ter compreendido que chegaria o tempo em que a censura e a moralidade, os
costumes e o diabo a quatro, iriam riscar (ou omitir, o que lhe dá as mesmas
voltas), o que pode ferir os meninos e meninas na escola, principalmente com o
crivo de uma editora (nem sequer digo o nome) que lhe levou a poesia aos
manuais escolares.
Aqui é que bate o ponto.
Trata-se do poema "Ode Triunfal", que a editora levou ao manual "Encontros", alegando conter três versos com linguagem grosseira... para o 12º ano!
Trata-se do poema "Ode Triunfal", que a editora levou ao manual "Encontros", alegando conter três versos com linguagem grosseira... para o 12º ano!
Se a senhora editora não gostava, não publicava no manual; a publicar,
fazia-o na íntegra. Há a considerar que Álvaro de Campos (aliás Fernando
Pessoa), ao escrever “ó automóveis apinhados de pândegos e de putas”,
referia-se aos veículos da época e às ditas contemporâneas.
Até o corrector automático me sublinha a vermelho aqueles dois vocábulos "pândegos" e "putas" como se ninguém os pronunciasse hoje em dia. Uma palermice!
Parece-me que hoje, ao contrário do tempo do grande Poeta (à cautela, o desenho em cima é meu) – eu
admiro-o como o maior no seu génio e no género – não se confirma o que Pessoa/Álvaro disse da época, até porque: primeiro, a pândega nos automóveis acabou, a não ser que se queira
arriscar soprar ao balão; segundo e último, as putas estão à beira da estrada, coitadas, na
esperança de entrarem neles quando não se encontram apinhados.
O patusco é que ninguém se insurge com esta psicose, principalmente os que se fartam de falar no lápis azul do antigo regime. Apeteceu-me dizer um palavrão, daqueles com cabeleira que também são riscados no manual da editora, e já o disse, pelo que não o vou escrever.
No “placard”, o resultado ao intervalo (que deve ser o do final) é:
Pessoa/Álvaro de Campos-1 – Editora do Porto-0.


