segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O SANCHO PANÇA CONFINADO

 

Já devem ter lido o D. Quixote de la Mancha ou, pelo menos, ouvido falar nesta criatura e no seu seguidor, Sancho, cuja pança lhe valeu o apelido. É este o martirizado e incompreendido companheiro de D. Quixote, autor da máxima que outros parafraseiam - não creio em bruxarias, mas que as há, há.

Farto de ver coisas estapafúrdias, das quais e não menos significativa era um amo desaparafusado do juízo, o gordo e desajeitado escudeiro só lhe faltava acreditar em bruxas. Aliás o Sancho Pança era um pobre diabo que tinha um fôlego épico para aturar tanto disparate junto. Mas tantas e tais as mirabolantes contradanças e alucinações em que o seu amo se meteu, que o coitado passou a crer na existência daquilo que não cria, mas que nós cremos que ele cria… E que ele não queria.

Não foi por acaso que Miguel de Cervantes e Saavedra, o autor da obra, começou a escrevê-la em Lisboa, tal Portugal já era propício a semelhar uma Mancha espanhola. Enfim, “mancha” que é difícil de desmanchar e ainda mais de apagar.

Perante um ou vários D. Quixotes que nos orientam na Saúde, com ordens e desordens e mais bagunça, é natural que, confinado como deve ser, o Sancho ainda mais lhe aumente a pança à medida que lhe mingua a paciência.

Já devem ter reparado quem se revê no papel de Sancho. Eu sou um deles. Nem me falta o aumento do abdómen, que me faz lembrar uma jiboia na digestão de presa grossa.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

O GRÃO-VIZIR

Para quem já leu a banda desenhada de Tabary, na série intitulada "As Aventuras do Grão-Vizir Iznogoud", saberá que ali a máxima é: "todos querem ser vizir no lugar do vizir".

Não é fácil ser "macho Alfa" nos partidos políticos. É um lugar tentador e há sempre jovens turcos que almejam aquela posição, espreitando a primeira oportunidade, principalmente as ondas que chegam após eleições, tais como os cogumelos depois das chuvas.

Soube-se hoje que o "vizir" do CDS resistiu no seu lugar alfa do Largo do Caldas, que mais me pareceu a confusão do Largo dos Caldos Entornados nos últimos dias. O vizir resistiu e o Caldas ficou um caldinho mais temperado, depois de tanta ebulição.

No PS não falta quem queira o lugar do líder "vizir", pontualmente perfilando-se como desmancha-prazeres, mais ou menos dissimulados, às linhas do chefe. Chegada a altura, no Largo do Rato haverá chiadouro e raticida, mal apanhem o dito vizir mais fragilizado.

O mesmo se passa para os lados do PSD, na São Caetano à Lapa, onde não faltará andarem à lapada para ocuparem a cadeira do "vizir". Como a rua, lá no sítio, é inclinada, nem precisam de patins para o porem a deslizar.

Menos evidente é a situação do BE, onde o vizir é "a vizir" da Rua da Palma, não parecendo mulher que aceite palmadas pela posse do lugar que conquistou. Tal como a padeira de Aljubarrota, apanhando os lampeiros no forno, será mulher para arrumar candidatos.

Quanto ao PCP, que mora na rua que tem o nome do autor de "Esteiros" e "Engrenagem", a coisa não se passa assim, às claras. A cadeira da liderança costuma ser aquecida até queimarem as nádegas, porque a engrenagem se firma na "ditadura do proletariado", cujo referido não tem palavra a dizer. Candidatos a vizir só com o apoio do vizir. As reclamações são recambiadas para o ecoponto vermelho.

No mais recente "Chega", nem sequer parece haver assalto ao poder, porque o "vizir" é só um, como quem diz que "chega para todos" e quem não estiver bem, mude-se.

É difícil ser grão-vizir.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

A VARINHA DE CONDÃO

 

A varinha de condão, para além de ser um objecto de feitiçaria é, no sentido físico, um adereço de magos e de maestros de orquestra. É igualmente uma força de expressão para indicar uma ideia ou uma realização que surge para realizar o que não parece realizável. 

No sentido físico percebe-se que a madeira é um bom condutor de energia, pelo que quase todas as varinhas são feitas deste material, principalmente de sabugueiro (salvo as que são made in China, de plástico reciclado), o que outorga dignidade aos seus possuidores. Também nunca percebi qual é a função e utilidade nas mãos dos magos e maestros, talvez porque sou um podão em metafísica e música, tanto mais que não imagino feiticeira sem varinha e chapéu de cone no arremedo dos seus artifícios. Pelo menos é assim que se apresenta a Feiticeira Branca, das Crónicas de Nárnia.

Os autarcas e os homens bons dos antigos concelhos (nos tempos em que havia "homens bons") tinham direito, não a uma varinha, mas a uma vara, que lhes era entregue pelo pelouro que desempenhavam. Daí lhes ficou o nome de vereadores e não de varinhadores. Hoje em dia, mesmo sem essa vara, nalguns casos o poder suplanta em muito o dos feitiços, enquanto os malabarismos do dito deixam à banda as habilidades dos mágicos.

Ora, com este relambório de entrada, já me esquecia do propósito deste post. E ele é sobre as vacinas que a Ciência coloca à disposição da humana gente para combater o Corona, dito Covid19 ou SARS Cov2. De facto, surgidas em tempo record, tendo em conta que o pódio era ocupado pela vacina da papeira, que demorou apenas 4 anos a ser produzida, a vacina ou as vacinas vêm com o rótulo de milagrosas e de escudo invisível.

Há uma série de farmacêuticas, graças à partilha de informação, com as próprias criações, sendo as mais significativas a Astra Zeneca/Oxford, a Moderna, a Prizer/Bion-Tech, a Coronavac e a Sputnik V, sendo que esta última, da Rússia, foi baptizada com o nome de um foguetão, mais próprio para ser posto a supositórios.

Sendo assim, julga-se que a varinha de condão foi eficaz nesta criação, não tanto na sua distribuição à escala mundial e nacional. Por uma razão muito simples: não se produz na quantidade e rapidez desejável, optou-se (e bem) por administrá-la por graus de prioridade, parece ter-se esquecido de produzir seringas e pessoas que as administrem em massa e em força. A juntar a isso, há países que levam a trumpística máxima do "america first" (só mudando o nome da nação) e outros que têm de andar de chapéu na mão ó-tio, ó-tio, para conseguir mais doses das farmacêuticas, que não têm mãos a medir.

Finalmente, depois da maior parte humana vacinada (não acredito na totalidade, há sempre abstencionistas, voluntários e involuntários), resta saber como irão fazer os do costume. Estou mesmo a ver que considerado o vírus para trás das costas, regressa-se à rebaldaria antiga, como se o vírus estivesse morto e enterrado a sete palmos.

A ver vamos...

 



 


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

PARA O GOVERNO E MINISTRA DA JUSTIÇA

Quem me conhece sabe que digo o que tenho a dizer, principalmente quando acho que o devo fazer e sinta razão para isso.

É por isso que vos trago esta página da obra que fiz, em parceria com o Dr. António Neves, sobre a vida do Dr. José da Silva Carvalho, que foi o primeiro presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o principal impulsionador deste órgão máximo, para além de ser um dos quatro elementos do Sinédrio, que iniciaram a revolução de 1820 e o Liberalismo.

Então, foram distinguidos e independentes os três poderes, os quais permitem a Democracia: o Legislativo, o Político e o Judicial.

Vem isto a propósito das nomeações que ainda se fazem de uns para outros, sendo o poder Judicial nomeado pelo Político ou pelo Legislativo. Isto pode significar o que o ditado popular determina: "quem paga a música, escolhe a dança". Mesmo que assim não seja, lá se cai em outro aforismo, como "não basta a mulher de César ser séria, como deve parecer séria ser".

Felizmente há juízes que executam a sua missão, doa a quem doer, como também há políticos que respeitam essa independência. Mas não chega...

Quem leu os meus posts do dia 3 de Janeiro e o de ontem, dia 28, encontrará motivos para meditar nas palavras do Dr. José da Silva Carvalho, expostas na página da ilustração. A independência do poder judicial tem de ser e parecer, para que as dúvidas não repousem na mente dos cidadãos independentes e livres.

Daí eu ter endereçado este post, em forma de título, ao Governo e à Sra. Ministra da Justiça, bem como a todos os Leitores que o lerem, sem considerações inúteis ou acusações infundadas.

Deve-se meditar naquela estrofe de António Aleixo, quando se refere às promessas de um mundo novo, propagadas do alto do império: "lembrai-vos que pode o Povo querer um mundo novo a sério".

Para facilitar a leitura das vinhetas da ilustração, vou repetir a palavras finais de Silva Carvalho:

"A independência do poder judicial não é um favor concedido à classe dos juízes; é uma garantia dada à sociedade. Sem essa garantia não é possível que o poder judicial preencha a alta missão que a Carta (Constitucional) lhe confere elevando-o à categoria de poder político do Estado".


 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A CULPA DOS INOCENTES

Quero dizer que não tenho clube de futebol de coração, nem me manifesto sobre estas coisas da bola. Porém, com uma recente decisão do Conselho de Disciplina da FPF, verifico que nada é como dantes, nem o quartel general em Abrantes!

Num dos últimos jogos de futebol, determinado jogador do SCP foi (pelos vistos e considerados) mal castigado com um cartão amarelo. O árbitro do encontro veio a considerar que errou, pois não houve falta a que se aplicasse tal penalidade. Subiu o caso ao dito Conselho de Disciplina, agora liderado por uma licenciada em Direito e deputada do PS, Cláudia Santos, a considerar que prevalece a decisão do árbitro no jogo.

Os seja, para que serve o CD? E o que está a senhora a fazer ali?

Em Direito parece existir qualquer coisa como a assunção da culpa por terceiros, a qual pode evitar que um réu seja condenado injustamente. Pois houve alguém que assumiu a culpa e não houve "crime", mas para esta senhora licenciada em Direito, a culpa continua a ser do inocente.

Duas questões:

como se faz a nomeação de uma pessoa politicamente arregimentada para um cargo destes?

quem é que beneficia com esta decisão?

E uma última questão:

A Justiça em Portugal inclinou o barco para um dos lados. De tanta inclinação, quer cá dentro quer lá fora, o barco vai fartar-se de meter água. A separação dos dois poderes, tanto pretendida e conseguida na Revolução Liberal  vintista, está a esfumar-se. O Político abre a bocarra para engolir o Judicial.

Será que o tal covid, em vez de descer, sobe para cima?

Só me resta uma consolação - a culpa não é minha. Ou será?!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

UMA NOITE COM E SEM SURPRESAS

O acto eleitoral de ontem, domingo, trouxe-nos um tabuleiro de xadrez com algumas peças no seu sítio e outras fora dele. Pode-se dizer que os resultados que foram surgindo trouxeram surpresas e não surpresas.

Não me deixou surpreendido a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, nem tão pouco o terceiro lugar de Ventura, que de cada vez se "chega" mais à frente.

Surpreendeu-me Marisa Matias ficar após João Ferreira e o facto de André Ventura ficar em segundo lugar em todo o Alentejo, quando eu previa que, pelo menos, esse seria ocupado pelo candidato comunista. Putin terá dado um murro na mesa.

Esta hecatombe comunista alentejana traz-me à memória aquela "charge" humorística do Contra-Informação da TV, quando a deputada comunista Odete Santos, face ao avanço do PS no seu território, assegurava ao então líder do partido, Carlos Carvalhas:

"O Alentejo ainda há-de ser nosso outra vez, camarada!

Ao que Carvalhas, mais comedido e a adivinhar o futuro, respondia:

"Calma, Odete, calma."

domingo, 3 de janeiro de 2021

"ELE" HÁ CADA "UMA"!

 Com a finalidade de colocar um "afilhado", "perfilhado" ou "preferido", em determinado lugar, fazem-se coisas do arco da velha, as quais não lembram à velha nem fazem parte do arco. É o caso recentemente trazido à praça pública (mas já passado) de o Ministério da Justiça - que devia dar o exemplo de probidade - inventar currículos falsos para colocar o "seu" procurador europeu, passando à frente de outra candidata em mais vantagem. Só faltou dizer que o homem foi o fundador, no séc. XIX, do Supremo Tribunal de Justiça, porque três falsidades ninguém lhas tira.

A senhora Ministra da Justiça, tentando justificar os "lapsos", deixou uma fotografia ainda mais tremida do seu ministério e voltou a cometer outro, em directo na RTP, ao afirmar que o "seu" procurador liderou a investigação à Junta Autónoma de Estradas, quando efectivamente, esse cargo foi de outro.

Falou em empolamento profundamente injusto e situação rigorosamente transparente, para além de sugerir que há um discurso envenenado (talvez com gás Sarin), mesmo sabendo-se que "injusto" não é o termo indicado para o caso e, quanto à transparência, saber-se como ela se pode manter num assunto que começou por ser confidencial. Relativamente ao "veneno", ele parece-me estar na invenção do currículo apresentado na Representação Permanente de Portugal na União Europeia (REPER). Essas falsidades na carta, na nota ou no memorando foram a tal ponto grosseiras que se acabou por inventar um cargo inexistente no currículo do juiz escolhido, o de procurador-geral adjunto. 

A Justiça não saiu apenas fragilizada, porque sai ridicularizada, e não só da parte de dentro da fronteira. A entrevista da senhora ministra foi deprimente, tentando defender, à maneira dos advogados manhosos, um assunto indefensável.

Não vou dizer mais do que isto. Interrogo-me se estas falsas indicações curriculares não são motivo para processo judicial, sendo cometidas por vulgar e pequeno cidadão,  e se esta atitude deprimente não compromete a função dos juízes, pois é a eles que compete julgar estas anomalias.

A senhora ministra, neste caso, nem devia invocar que a sua demissão compete a quem a nomeou, porque foi ela, ou quem ela representa, que cometeu os lapsos na carta (ou na nota, como afirma). Devia apresentar o seu pedido de demissão. Porque não são simples lapsos, tratando-se do currículo de alguém; são mentiras. E estas não ficam bem a quem ministra a Justiça.