quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ANDAMOS TODOS ENGANADOS


Depois de a organização não-governamental dos direitos dos animais PETA, na origem americana, ter lançado uma campanha para acabar com expressões que sugerem maus tratos a animais, o PAN (Partido dos Animais e Natureza) gostaria de ver alterações a expressões portuguesas que se referem negativamente ao trato dos animais.
A coisa surgiu há tempos, perante algumas críticas, acabou o charivari; por este ter acabado, entro eu com a minha sanfona.
O “dois em um” tem as suas vantagens, tirando aquele rifão de “matar dois coelhos com uma cajadada só” e ainda a mais ridícula pretensão de o alterar para “pregar dois pregos de uma martelada só”. Se fosse “comer dois pregos de uma dentada só”, se não se tomasse por alarvidade, faria mais sentido.
Não se julgue que isto só se aplica à Língua portuguesa. Em inglês, a expressão acima é “kill two rabbits with one blow” e a expressão comparada à nossa é "matar dois pássaros com uma pedra" (kill two birds with one stone), que passará a poupar as aves com  "alimentar dois pássaros com o mesmo pão".
Embora não tenha o mesmo sentido, dizer “mais vale dois pássaros a voar do que um na mão”, e não proferir “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, se me é permitida a sugestão, ainda que o rifão perca todo o sentido, seja “mais vale três pássaros a voar e nenhum na mão”.
Parece que não, mas sou pela vida e protecção dos animais. Sou incapaz de matar algum, o que não quer dizer que, como carnívoro, não passe ao dente aqueles que os outros sacrificaram. Suponho que me alivia pensar assim: já está morto, de qualquer forma não foi morto para mim, qualquer um o podia comprar. Enfim, se calhar está na hora de aderir ao veganismo e tornar-me vegetariano.
Quando andava aí pelos meus cinco anos, os meus pais tinham na coelheira uma coelha. Para mim era um animal de estimação, com quem arranjei alguma empatia; para os meus pais era mais um animal de criação, predestinado a ir parar a uma panela, quando se chegasse a ocasião. Eu não sabia disso, presumi que a coelha estava ali para ser protegida e para compensar a minha solidão de filho único. E enganei-me. Quando dei conta, certo dia encontrei a coelheira vazia e a sua pele estendida num alguidar da cozinha. Foi um choque! Um choque daqueles que marcam, mas marcam mesmo, talvez percebendo que a vida de quem gostamos não depende dos nossos gostos e desejos. Ainda me arrepia a passagem ao escrever sobre ela. Nunca mais comi carne de coelho. O próprio cheiro desses cozinhados me agonia. E o destino da coelha, daquela forma e naquela idade, ficou marcado a fogo na minha memória.
Sigamos adiante para uma próxima alteração.
“Pegar uma flor pelos espinhos” esteve em cima da mesa para substituir uma máxima já velha e relha que nos ensina a “pegar o touro pelos cornos”. Pois bem, embora já alguns de nós, imprevidentemente tivéssemos pegado uma flor pelo caule espinhoso, isso aconteceu e não é avaria nenhuma; nenhum de nós, a não ser que me esteja a ler algum forcado da cara, ousou pegar um touro pelos cornos. Pela minha parte, nem pelos cornos nem pelo rabo e desejo que ele não pegue em mim por parte alguma.
Uma outra alteração deixa o recado para não se usar a expressão “bater num cavalo morto”, substituindo-se por uma outra que leve o mesmo sentido, equivalente àquela que se diz “bater na mesma tecla”, “insistir no mesmo” ou “ser teimoso”. Essa outra será, ainda mais equívoca do que a maldade de bater no cavalo defunto, que é “alimentar um cavalo alimentado”. Se me pedissem a opinião, fugindo aos cavalos mortos e bem alimentados, preferia que se tomasse uma outra, menos ofensiva – “chover no molhado”.
Já houve outras tentativas, mesmo antes do PETA e do PAN pensar nelas, de alterar ditos e canções onde se “maltratam” os bicharocos. Exemplo disso é a letra da canção “Atirei o pau ao gato, mas o gato não morreu”. Dessa arte preferiu-se – e até pode ser bem sucedido, porque há aqui de facto a violência na boca de uma criança –  modificar de modo a ficar “Atirei o pão ao gato, mas o gato não comeu”; o mesmo não sucederia se os mais atrevidos e maldosos resolvessem cantar “atirei o pai ao gato”…
É natural que todas estas expressões já vêm do tempo das cavernas e quem as profere apenas quer reforçar a ideia sem pensar na prática do dito. Tentar modificar ou, pior ainda, proibir por iniciativa legislativa um aforismo que não passa disso mesmo, parece-me ser uma patetice pegada. Melhor fora cuidar por decreto a defesa dos animais que, mesmo retirados os aforismos ofensivos, sofrem na pele os descuidos dos seus parentes vivos da Terra.
O PETA devia preocupar-se primordialmente com o presidente Trump, o qual não se preocupa com animais e muito menos com a natureza, um caso de estudo que, bem analisado, se saberá que o presidente se preocupa apenas com ele mesmo. E também há no rifoneiro português um provérbio para ele: "quem com muitas pedras bole, uma lhe dá na cabeça”.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

OS LIVROS EXCOMUNGADOS



Uma das maiores iniciativas culturais do séc. XX foi a criação das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Para mim, das melhores e das mais benéficas. Foi graças a esta iniciativa que eu tive acesso a muitos livros, em S. Romão (Serra da Estrela) e em Viseu (Abraveses), sendo que nesta cidade, não havendo biblioteca itinerante, tinha de percorrer a distância a pé até Abraveses, cerca de 10 quilómetros, algumas vezes debaixo de chuva e com os livros por dentro do casaco.
Os livros iam até às aldeias mais recônditas onde, como é provável, não existisse um único exemplar, a não ser em casa do professor e do pároco, se bem que quanto a este último, como vou descrever, era matéria maldita e excomungada, pelo que devia servir, caindo lá, para acender o lume da lareira.
Este caso verídico passou-se com o poeta António José Forte (1931-1988) quando era funcionário de uma dessas bibliotecas. Indo ele e o seu colega, dois dias depois do Natal de 1960, até uma aldeia minhota (Parada de Bouro –Vieira do Minho) para cumprir o dever de levar livros aos leitores, aconteceu que lá apareceu o padre aos berros e a intimidar os dois funcionários e requisitantes, acusando uns de estarem a emprestar livros “protestantes” e os paroquianos de levarem para casa aqueles panfletos do demónio. Não contente com as palavras, retirou alguns livros das mãos das mulheres que os levavam requisitados e atirou-os ao chão lamacento, ameaçando excomungar quem levasse aquele “mal” para casa.
O que foi ele dizer! Quase todos os que requisitaram os livros, principalmente as mulheres, foram acometidos da mesma psicose, imitaram o padre e atiraram os livros ao chão ou para dentro da carrinha, ao mesmo tempo que proferiam insultos e ameaças. Ao coro feminino, juntaram-se os homens que vinham do trabalho com sachos às costas, ameaçando os “intrusos” que vinham conspurcar quem estava na graça de Deus. É caso para dizer: os tolos não se semeiam nem se plantam: nascem espontaneamente!
Poucos desobedeceram e terão recebido a excomunhão, que não lhes terá feito mossa alguma, ao contrário dos ignorantes que se propuseram como figurantes da época dos cavernícolas. O que valeu para os dois homens da Gulbenkian e para os livros, foi eles darem o fora, evitando que se abrissem covas no chão para enterrar todo o papel, se não fosse mais prático chegarem um fósforo e queimarem aquela papelada de “belzebú”. À guisa de muitos autos-de-fé, vontade não lhes faltaria de queimarem os livros para se verem livres deles e não para verem tições acesos. Ainda pior, se ficassem os dois trabalhadores a pedirem justificações, certamente a percussão das sacholas estaria apta à rachadela de cabeças e a sorte da biblioteca itinerante seria outra.
Ao ler este episódio lembrei-me do Bandarra, o profeta sapateiro. Um dos mais graves crimes que ele tinha cometido, de que foi julgado pela Inquisição, foi ler uma Bíblia em linguagem. Era proibido possuir e ler o livro sagrado traduzido em português, livrando-se da fogueira por uma “unha negra”: não era cristão novo; não quis alvoroçar os cristãos novos, citando trechos bíblicos; abjurou e participou no auto de fé para se livrar dos pecados da obra; prometeu não possuir mais livros sagrados, a não ser o “Evangeliorum” e o “Flos Sanctorum”, não ler nem escrever sobre o Antigo Testamento, sob pena de maior castigo, naturalmente o das brasas.
Imagino se o meu livro “O Padre Costa de Trancoso”, história ficcionada sobre a lenda de um sacerdote do séc. XV que fez gerar 299 filhos em 53 mulheres, estivesse naquela carrinha, ele que foi publicado 47 anos depois! E imagino também, dentro dos parâmetros de “estilismo” dos jurados do Prémio LeYa 2019, que jeito faria um padre deste quilate no seio deles, justificando a repulsa da atribuição do galardão a 409 originais!
Nem sei se aqui há moral da história. Se meditarmos que o caso narrado pelo poeta aconteceu na segunda metade do séc. XX, 420 anos precisos sobre a condenação das leituras de Bandarra, é caso para encontrarmos as razões do atraso cultural que marcou este País, maninho de ideias e cheio de gentios submissos, e para percebermos até que ponto a Igreja, com aquela postura ridícula (felizmente por parte de poucos sacerdotes), foi fazendo perder a fé naqueles em que era suposto firmá-la, transformando alguns em patetas alegres.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

VOO ATRIBULADO NA "BARRIGA DE GINGUBA"


Com o meu pai ao serviço da Força Aérea em Moçambique, tinha eu 12 anos, vi-me a fazer uma viagem de avião com ele entre Nampula e a Beira (BA 10), regressando dias depois no trajecto inverso. Na altura, estava ao serviço da FAP um avião que tinha a alcunha de “barriga de ginguba”, designado de fábrica como Nord 2502F Noratlas. Tratava-se de um bimotor de caudas laterais duplas, unidas na traseira do aparelho, mantendo no meio aquela espécie de amendoim (ginguba ou jinguba é o termo Kimbundu para amendoim) onde viajavam passageiros, em número de 35, e carga da pesada, designadamente camiões de combate, como as Berliet.
Foi nessa viagem de regresso a Nampula que o Noratlas, pintado de alumínio e com aquele aspecto de torpedo com asas, foi acometido por uma violenta tempestade, ficando com um dos motores em falha, a engasgar-se. Havia nuvens e turbulência severa, abanando aquela coisa como se um maluco dum barman estivesse a preparar lá dentro um shake de gin e tonic. Pior ainda, quando aquele tipo de aparelho, se bem que robusto, estava limitado a voar a altitudes que não ultrapassavam os três mil e quinhentos metros. Aguenta e cara alegre!
Para quem nunca viajou naquelas circunstâncias, aviso que é a forma mais radical de viajar de avião. Os assentos são em lona, ao longo das janelas redondas, de um lado e outro, pelo que os passageiros vão de costas para a janela. Ali tanto dá levar o cinto de segurança posto como não levar o cinto das calças, uma vez que a carga vai no corredor central.
Naquele dia iam um jipe e uma Unimog, para além de caixas não sei de quê e tralha vária.

Pormenor das portas traseiras do Noratlas

Perante aquela turbulência, este rapaz também turbulento nos seus doze anos, perante um temporal que soprava à trompa, largou o lugar e foi espairecer para a cauda do avião. Foi um delírio. Aquilo é, de facto, uma porta dupla, que se abre para engolir o que quer que seja lá transportado, com apenas duas janelinhas ovais, que se unem quando fechadas. Não há ali assentos, apenas fuselagem. Se aquilo faz abanar aquele que lá viajar em tempo ameno, imagine-se com temporal.
O meu pai não deu conta que eu saí do lugar, visto eu ser na altura tão torto como cordel de pião no bolso das calças,  mas um dos quatro ou cinco membros da tripulação, talvez avisado por ele, decidiu acercar-se da traseira, onde eu placidamente via as nuvens e escassos farrapos de solo pelos postigos, dando ideia que me encontrava em trote sobre um garanhão.
- Tu deves ser marado da pinha, ó miúdo! Vai já para o teu lugar, antes que eu perca a paciência!
Obedeci e ainda lhe ouvi dizer, baixinho:
- Este puto tem nervos de aço.
Mais tarde, com mais assento, encontrei um rifão apropriado: “sofre de medo quem tem medo de sofrer”.
Aterrámos pouco depois, em Nampula, no aeroporto situado perto do bairro da Metecolia. Da “barriga de ginguba” saiu um então herói da guerra, o comandante paraquedista Rafael Durão em uniforme camuflado, então coronel ou tenente-coronel não sei bem, um homem de uma extraordinária coragem na frente de luta. Eu pus-me ao lado dele e assim marchámos, a compasso, até às instalações do aeroporto. Talvez, tirando os tripulantes, que ficaram para trás, fôssemos os únicos a caminhar direitos, uma vez que a maioria dos passageiros vinha com as cores da cidra e a cambalear como se acabasse de sair da centrifugadora da máquina de lavar.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

HOJE VOU FALAR DE LIVROS


Poderei dizer melhor: hoje vou falar de prémios literários.
Em tempos concorri a prémios literários, geralmente de pouca monta, muito embora um deles fosse atribuído pela RTP, através de um dos seus programas. Nem sempre consegui vencer, porque só concorri a cinco, mas três dos prémios vieram por obra deste obreiro da escrita.
Também não é do passado que pretendo falar, tanto mais que desde há muitos anos que não concorro a prémios literários ou artísticos. Quero manifestar uma estranheza, esta relativa à não atribuição, neste ano de 2019, do chorudo Prémio LeYa.
Concorreram 409 originais, não posso dizer de outros tantos autores, porque alguns podiam apresentar mais que um trabalho. Parece, porém, que a quantidade não correspondeu à qualidade. E o júri final, sob a batuta de Manuel Alegre, não terá lido aqueles calhamaços todos, porque um júri preliminar se ocupou dessa tarefa, o que ainda reduz mais a qualidade das quatro centenas. Ou, na mais grave das hipóteses, a deficiente qualidade do júri, naturalmente com carta branca, que assim decidiu por unanimidade.
As centenas de autores concorrentes ficam, deste modo, a chuchar no dedo e a olhar para a biqueira dos sapatos, mesmo sabendo que só um receberia os cem mil pacotes do prémio. Resta-lhes agarrar no respectivo original e de irem de chapéu na mão mendigar o favor de publicação a uma editora, talvez até à mesma que lhes negou o prémio; ou, em alternativa para se satisfazer o ego, de pagarem em regime de “vanity publishing” para ver a obra sair da tipografia. Melhor lhes diria, se acaso o júri não encontrou matéria para preencher os parâmetros da valia, que façam obra mais caprichada; ou que, para esquecerem o desgosto e marados da pinha, apanhem uma suave carraspana.
Por uma questão de cotejo, decidi perceber, em cada um dos últimos vencedores, a razão que o júri invocou para a atribuição do prémio, já que, nesta de 2019, foi apenas isto, sem especificar: “as obras concorrentes não correspondem aos parâmetros de qualidade literária exigidos”. Enfim, todas elas mancavam com a falta de qualidade, mas não se exigia de que tipo.
Em 2018, “Torto Arado” do escritor brasileiro Itamar Vieira Junior, foi distinguido pela "solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como aborda o universo rural do Brasil".
Em 2017,  “Os loucos da rua Mazur”, de João Pinto Coelho, foi  galardoado e elogiado pelo júri pelas “qualidades de efabulação e verosimilhança em episódios de violência brutal com motivações ideológico-políticas e étnico-religiosas”.
Em 2016, tal como este ano, não foi atribuído, pois mesmo com um único finalista escolhido, o júri alegou estar perante originais que “se apresentavam prejudicados por limitações na composição narrativa e por fragilidades estilísticas”, precisamente a mesma couraça e lengalenga esfarrapada do ano de 2010 – foi só copiar e colar.
Em 2015, “O Coro dos Defuntos”, de António Tavares, venceu graças a “uma construção sólida, conduzindo o leitor através de uma escrita que inscreve em paralelo o percurso do país e o do mundo ficcional, sem que um se sobreponha ao outro” e ainda “reanima, com conhecimento empático e com ironia, uma ruralidade ancestral”.
Em 2014, “O Meu Irmão”, de Afonso Reis Cabral teve o primeiro e único lugar por tratar de um tema delicado, com “uma visão sentimental e vulgar: a relação entre dois irmãos, um deles com síndrome de Down”.
Em 2013, «Uma Outra Voz», de Gabriela Ruivo Trindade, obteve a escolha do júri, que destacou na obra “consistência do projecto narrativo que procura, através de várias gerações, e com o foco em personagens de grande força, sobretudo femininas, retratar a transformação da sociedade e dos modelos de vida numa cidade de província, no Alentejo”.
Em 2012, “Debaixo de Algum Céu”, de Nuno Camarneiro, escolhido entre sete finalistas porque o autor “faz de um prédio de apartamentos à beira-mar o tecido conjuntivo da vida quotidiana de várias personagens - saídas da gente comum da nossa actualidade, mas também por isso carregadas de potencial significativo".
Em 2011, "O teu rosto será o último", de João Ricardo Pedro, passou a perna a oito finalistas pela sua “composição delicada de histórias autónomas, que se traçam em fios secretos", e ainda "apoiado em imagens fortes, constrói um perturbador painel do presente português".
Em 2010, sem atribuição de prémio por o júri ter estado com 325 obras a concurso e considerar estar “perante originais que, apesar de algumas potencialidades, se apresentam prejudicados por limitações na composição narrativa e por fragilidades estilísticas”.
Em 2009, "O Olho de Hertzog", do moçambicano João Paulo Borges Coelho, foi o escolhido pelo “contexto histórico dos combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na I Guerra Mundial, na fronteira entre o ex-Tanganica e Moçambique, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul”.
Em 2008, "O Rastro do Jaguar", do brasileiro Murilo Carvalho, o primeiro a ser o primeiro e único, considerando para os decisores finais tratar-se de uma “obra de fôlego, que refigura uma vasta erudição, combina narrativa histórica e arte poética, elaboração wagneriana e aura profética”.
Não concorri ao Prémio LeYa. Que fique isto claro!
Sem querer descredibilizar o Prémio LeYa e o grupo editorial, que me merecem o maior respeito, nem sequer todas as nove obras premiadas desde 2008, acho estranho – muito estranho mesmo – que em tantos originais não haja um (apenas um) que tivesse o mínimo de aproveitamento editorial. Que há obras publicadas cuja leitura é mais monótona do que contemplar durante um dia os peixes num aquário, isso há. Na opinião do júri, se meter pela calha das justificações anteriores, desta vez foram recebidos originais de uma cambada de escrevinhadores com “fragilidades estilísticas”, que obrigaram à aplicação do artigo 9º do regulamento. A barulheira que isto poderia dar se houvesse quem se interessasse por apurar as razões, atordoaria os ouvidos de um surdo.
À falta de melhor, se não houver quem queira caprichar, lá concorrerão de futuro alguns teimosos, em número que se pode contar pelos dedos das duas mãos, sobrando alguns na aritmética. E não me admirava nada que alguns “deficientes estilísticos” voltassem a insistir, com menos assombro da minha parte se abichassem o primeiro lugar num dos próximos prémios; porque nisto de literatura e de prémios literários, às vezes parece que se confunde um elefante de tromba no ar com um embondeiro.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Another Brick In The Wall - Outro Tijolo no Muro


As circunstâncias da vida, as próprias opções e outros apelos fizeram com que eu escapasse a uma profissão: professor.
Não cabe no meu feitio educar quem não quer ser educado, tem renitência à educação e que, ainda pequeno pepino, desobedece, violenta e agride quem o quer ensinar; também não me passaria pela mente vir, mais tarde, a ser tutelado por um ministério que não promove a dignidade do professor (antes a vilipendia), com a mesma desfaçatez com que assiste a fenómenos de violência por parte de alguns alunos, mais aprendizes de energúmenos (senão já professores da matéria) do que educandos.
Nos tempos que correm, auxiliada por psicólogos que podiam ser bons jardineiros, a filosofia é criar uma criança que tem sempre razão, pode agredir impunemente e o diabo a quatro que se lhe mete no corpo.
A psicologia vai de encontro à canção dos Pink Floyd - Another Brick In The Wall  (Outro tijolo no muro) – quando na letra contém esta espécie de axioma: “Teachers leave them kids alone” (Professores, deixem as crianças em paz); ou mesmo quando fala pela boca de algumas delas: “We don't need no education” (não precisamos de nenhuma educação). Será que é solução retirar das cantinas as costeletas de novilho?
O que precisa, então, este tipo de cinco réis de gente? Três ou quatro telemóveis topo de gama, dois tablets, mesada ilimitada, roupa de marca e livre arbítrio até dizer chega e outros chiquismos que eles exibem à compita entre uns e outros.
Esta semana, por razões de indisciplina e desobediência, um puto recusou a ordem do professor que não queria vê-lo utilizar um telemóvel nas aulas. Conclusão, o professor passou-se (fez mal) e deu-lhe nas trombas. Caiu o Carmo e a Trindade, os media malharam no professor, a escola bateu no professor, o tribunal vai encarregar-se de zupar no professor. Se bem que, num momento descontrolado, o educador tenha agido mal – talvez estivesse melhor se mandasse o gaiato malcriado apanhar o fresco – o aluno sai desculpabilizado da jogada que ele armou. Lá entra a canção dos Pink – “There were certain teachers who would, Hurt the children in any way they could” (Havia certos professores que fariam sofrer as crianças da forma que eles pudessem).
Como se isto não bastasse, na mesma semana ocorreram mais agressões do lado contrário: miúdos entre os 11 e os 14 anos, agrediram professoras e professores. Conclusão, não se passa nada, é tudo normal. Os media levam o assunto a caixas de rodapé, a escola dispensa o docente agredido para fazer o curativo, o ministério finge que está tudo bem, nem queixa entra em tribunal (o que não faz diferença entre tanto milho painço, mesmo que entrasse).
Perante a apatia da tutela (ou até conivência com o satus quo), o Sindicato de Todos os Professores (S.TO.P), quis mesmo mostrar o Stop para estas situações e entregou um pré-aviso de greve, abrangendo professores, funcionários, psicólogos escolares e técnicos para protestar contra a violência e a impunidade nas escolas. 
Como cantam os Pink (a música é linda),é mais um tijolo no muro. Sim, concordo, é mais um tijolo no muro, e o muro no chão.
E queriam vocês que eu fosse professor? E passar o tempo a servir de almofada de alfinetes? Ah, grande Zé Povinho!…Toma!...

terça-feira, 22 de outubro de 2019

APRESENTAÇÃO DO LIVRO


É já no próximo Sábado, dia 26, na Casa da Cultura de Santa Comba Dão que será apresentado este meu trabalho de BD sobre aquele que eu considero como principal figura do Liberalismo.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O MEU MAIS RECENTE TRABALHO VAI SAIR EM BREVE


Já se encontra na gráfica este meu trabalho em desenho e cor, o qual tem argumento de António Neves, sobre o Dr. José da Silva Carvalho (1782-1856), uma das mais importantes figuras do Liberalismo, membro do Sinédrio, o qual se encontra reproduzido numa das pinturas da Assembleia da República, executada por Columbano.


A obra vai ser apresentada na Casa da Cultura de Santa Comba Dão (concelho na naturalidade de Silva Carvalho), no dia 26 de Outubro, iniciativa organizada pelo Município, também editor do álbum.


Este trabalho levou-me uns meses, mas deu-me muito gosto executá-lo, envolvendo desenho e trabalho de computador, pormenorizado ao ponto de algumas vinhetas precisarem mais de 8 horas para as dar por concluídas.

Junto apenas 8 das 60 pranchas que fazem parte do álbum, sendo estas escolhidas aleatoriamente da montagem das páginas par e ímpar.


Voltando ao grande vulto, acrescentarei que foi ele o impulsionador e o primeiro presidente do Supremo Tribunal de Justiça (ocupando este cargo em três nomeações), para além de ter sido ministro de várias pastas, ter estado no exílio por três vezes, e ter-se empenhado na Revolução Liberal de 1820, sendo um lutador para que se fizesse a Constituição. Foi contemporâneo dos reis D. João VI, D. Miguel, D. Pedro IV, D. Maria II, a regência de D. Fernando II e D. Pedro V.


Uma das maiores personalidades do séc. XIX, a quem muito deve a liberdade. E é a figura que me levou graciosamente a este trabalho, onde reproduzi grande parte dos intervenientes nacionais e internacionais daquele período.


Voltarei ao assunto.