domingo, 26 de janeiro de 2020

O RACISMO INCOLOR


Não escrevo este texto para aquelas cacholas que acham que os pretos estão a mais por aqui, porque não estão. Também não me dou ao descoco de escrever para os pretos que julgam que os brancos são todos racistas, porque eu não o sou e sei de muita gente que não o é, talvez até a maioria. Chamar pretos não é ofensa, assim como ouvir chamar-me branco também não ofende, pois brancos até são os frigoríficos e o papel higiénico.
Vim com esta cantilena para opinar sobre uma recente questão entre uma senhora de origem angolana e um condutor de autocarro de origem portuguesa. Como tem sido noticiado – e ainda não julgado, é bom que deixe o aviso – por a senhora se ter recusado a pagar o transporte ou sequer a exibir o passe de uma filha, o motorista chamou a autoridade. E aqui é que bateu o ponto…
A senhora reagiu, deu umas dentadas no polícia, este submeteu-a e levou-a para a esquadra. Apareceu a mulher com a cara de quem não foi afagada, pálpebras inchadas e lábios com sinais de agressão ou outra coisa qualquer, suponho que em vias de serem comprovadas as causas dessas mazelas notórias. Logo saíram os arautos do costume – foi racismo! Ou seja, se fosse uma senhora de cor branca na recusa do pagamento, nas mordeduras ao polícia e no suposto “tratamento” em sede de autoridade, como seria classificada a conjuntura ocasional? Possivelmente seria “integracionismo branco”.
Bem feitinhas as poesias, se fosse em tempos que já lá vão, a história passaria a ser narrada em cantigas do ceguinho, ao som de um realejo. Mas não estamos em altura de tratarmos as coisas com cantigas…
E há mais. Alguns elementos “não racistas”, que nesta altura só posso classificar de “incolores”, trataram de castigar o condutor, porventura como retaliação pela queixa que deu lugar ao caso. Se acaso os ditos "tratadores" forem de cor escura, como supostamente haverá quem conjecture por maioria de razões, será que se pode também classificar de “racismo”?
O que devia ter sido feito – ou omitido – para tudo acabar em bem em prol do convívio de “raças”? O motorista ter feito vista grossa e deixar seguir a filha sem o pagamento, abrindo uma isenção por se tratar de cor diferente? O polícia fazer vista ainda mais grossa e, em vez de ser mordido, pagar a passagem do bolso dele, como já acontece com parte dos seus acessórios de função? A senhora comportar-se com os deveres que se exigem a todos os cidadãos?
Enfim, duas profissões de alto risco, que eu não queria: para motorista, tenho pé pesado e se exigisse a um branco, exigiria a um preto, castanho, amarelo ou vermelho; para polícia, conforme a coisa está, não aceitava a farda, nem debaixo d’armas!
Resumindo na continuação do caso. No sentido de defesa de uma das partes, a SOS Racismo defendeu que o polícia envolvido nas agressões deve ser “imediatamente suspenso” de funções, não cuidando em apurar se foi ele o causador da barbaridade para com uma detida mas, do outro lado, não me consta que a SOS Polícias – neste caso o MAI – tenha vindo a defender o agente por ter sido desautorizado e mordido nas mãos e braços, nem a deputada do LIVRE viesse a clamar, como bem o faz com sonoridade, contra a actuação das autoridades, sem na sua suposta postura democrática, vir a condenar as agressões ao motorista.
Enfim, como sempre ouvi, venha a verdade ao de cima, embora o que está à vista não precise de candeia.


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